01/04/2008

Nossos dias

Ela acha que somente ela sabe o que se passa em sua cabeça. Mas eu sei também, eu consigo ler em suas expressões cada linha de seu pensamento. Disso ela não sabe, não faz idéia que daqui mesmo, agora, eu posso entender o porquê do seu sofrimento, da sua dor, da sua solidão. Queria poder dizê-la, mas ela não acreditaria em mim, não saberia apreciar o fato de que eu compartilho de seu ódio e da sua desilusão. Queria pegar em sua mão, dar-lhe um beijo leve em seus lábios, tocar-lhe a mente, passar as mãos nos seus cachos, fechar os olhos e abri-los s ao acordar com ela. Posso vê-la de costas agora, pele branca que contrasta com sua jaqueta azul. Já te disse que você se parece com uma pintura? Queria dizer-lhe isso. Sabia que suas lágrimas alimentam a minha esperança de um dia poder secar-las nas mangas da minha blusa? Eu sei disso, mais que você saberia da minha existência.

Tanto tempo que passamos lado a lado sem nenhuma palavra. Ontem, seu silêncio se quebrou, mas não pela boca, não pelas mãos nem pelos olhos. Ontem eu ouvia, de longe, o tocar triste de uma música de jazz, não qualquer, mas uma que ela sempre escuta, e é essa música suas palavras mais belas sobre a tristeza infinita que sente. Uma música que subia e descia, sua intensidade ao fundo é de mar calmo, a escova nos pratos da bateria ia ao ritmo de uma esperança suave que poderia nascer dentro dela qualquer momento, e o trompete, levava para as ruas, um pouco da sua respiração sôfrega como seu pequeno nariz que nunca, nunca respirou muito bem.

Eu sei disso também. Que sua existência dura o tempo de uma manhã quente, quando sai à rua e deixa o sol esquentar seu rosto e seu coração. Fecha os olhos, deixa sentir o calor que sempre lhe negam, sempre lhe escondem nos armários de casa, na sala vazia, no escuro do corredor dos quartos. Você se lembra de mim? Quando nos cruzamos a última vez você ia, de botas pretas e saia e lenço no pescoço, ao encontro de uma resposta. Te dou uma dica, eu estava ali, do outro lado da rua, chapéu, óculos escuros, reparou que meus olhos são verdes como os seus? Um dia vou te mostrar também a minha coleção de jazz, e te fazer uma sopa de tomates, pouco sal e muito amor. Não foi isso que você escreveu no seu diário? Menos sal e mais amor. Nem corpo, nem rio agüentam reter as águas, o fluido.

Mas deixa estar, deixe ser só você, quando se tenta tão só, se compreender, não existe peso demasiado nas revelações. Quem que você quer que te ame? Quem que você quer ser? Eu queria que você soubesse, que com você eu trocaria poemas e cartas de amor, mesmo que a sua saudade naquilo que quer não passe. Mesmo sabendo que você quer mais de tudo. Estarei aqui, te olhando sempre, colecionando momentos nossos, mesmo que estes sejam assim só no pensamento.

06/03/2008

Carta Aberta de Perdão

Se eu pudesse antes te pedir perdão de tudo o que aconteceu depois. E mudasse o rumo das coisas - eu queria ser melhor-, e poder te dizer que te amo antes, bem antes das brigas, dos desentendimentos, das picuinhas.
Queria saber no que vai dar todas essas fichas apostadas no nosso amor, e poder te comprar aquele presente tão lindo que eu vi. Queria estar mais bonita pra quando você chegasse, e já não me sentir só sabendo que você vinha. E poder ser perdoada antes daquele primeiro beijo.
Mas meu amor, me entenda, não fui e não serei perfeita, mesmo querendo, eu só sou eu mesma. Nasci de uma mistura de loucura e alegria. Queria antes de ter nascido, ter escolhido melhor a minha sina.
Então deixemos de lado essa história toda, tentar esquecer os meus pecado, as minhas imperfeições. Me convença que o nosso amor vai ser outro. Vamos começar mais uma vez de novo, como começamos tantas outras. E eu já serei - mais de dez vezes- aquela mulher que você tanto quis.

Ventos

Vem da vida aquele vento
vendaval que vem lento
vem sabido vem de dentro
vem do mundo, aventureiro
vem de ti, vem sem medo
vem moinho e vem centeio
vem centelha, vem vencendo
vem tão sóe verdadeiro
vem vivendo, sorrateiro
vem vindo, vem sendo
vem da vida, vida adentro
vendaval que vem do peito
sorrateiro vem de ti
sem medo do moinho
vem vivendo, vem tão só
é verdadeiro, vem de dentro.

alimento d'Alma

O que alimenta a minh'alma
não nutri mais o meu ser.
Um é feito de tristeza
o outro lhe falta tecer


-A luz da vida
que antes vinha
hoje já é sombra-

Os dois se separam
água e óleo no corpo
e fogo que num consome
no outro alastra todo

- Lá no fundo há sementes
como na terra ácida
esperam d'uma morte, asas-

E eu assim dueto
mas sem sonetos, nem canções.
Uma parte é assovio
a outra vela sem pavio.
Ai, quem me dera!
Achar-me feliz neste mundo
de uma vez só completa
as duas partes em uno.

- Mas não me desespero
quem espera sabe:
a vida um dia invade-

Então calma,
a alma cala
enquanto o peito sofre
e choram as duas partes
sem pressa, elas sabem
só o tempo cura.

Astrologia do Eu

Vou ler nos astros o meu futuro, e as estrelas
hão de dizer o que há de mais profundo.
O que navega no meu ser,
o que vem sem rumo.

Vou ler nos astros o meu futuro,
entender o cometa que passou por mim
e abalou o meu escudo,
e manchou o meu cetim.

Vou ler nos astros o meu futuro, quero ver
se o meu coração responde
aos estímulos do outro mundo.

Vou ler nos astros o meu futuro
buscar o signo que rege
o meu nada e o meu tudo.

29/02/2008

Vidas Ordinárias II

Estava tudo preparado para Paulo passar o reveion mais romântico da vida dele com a namorada em Cancún, quando o inesperado aconteceu. Sua querida mãezinha morreu na véspera do dia 30 de dezembro. Paulo, desesperado, tentou arranjar todo o funeral o quanto antes mas, ironias da vida, por ser final de ano, todas as casas funerárias e os serviços prestados estariam indisponíveis até o dia primeiro, ou melhor, dia dois, pois dia ume é Todos os Santos. Ficou resolvido assim, sua mãe ficaria na geladeira estes dias e logo no dia dois seria enterrada. Cancún ficou para trás. No dia do funeral, todos reunidos:

- Meus pêsames.

- Acontece.

- Ela tá com uma carinha, coitada...

- É, resfriada.

-Gripe?

-Não...freezer.

12/02/2008

Vidas Ordinárias I

Só agora que sua vida começou. A sua pequena coleção de miniaturas engraçadas estava completa. O IPVA IPTU e as dívidas do ano passado estavam quitadas. Agora era vida nova, Ana pensou. Tão nova que resolveu fazer um novo corte de cabelo e terminar de vez aquela meia coisa que ela havia começado com um certo alguém. Um equívoco. “dia 1...não, segunda feira, além de tudo, eu começo a ginástica”. Ana ganhou da sua amiga um dvd bárbaro de ginástica com uma super professora chamada tammy. “Se funcionou com ela, vai funcionar comigo”. Pensava ela enquanto comia pipoca e assistia ao vídeo ( pois jamais iria fazer uma ginástica sem antes saber do que se tratava) sentada no sofá, também novo, comprado na Benedito Calixto.

Mas não foi bem assim. As pessoas não podem ser felizes o tempo todo, incluindo ela, que era uma pessoa meio normal meio especial, meio bonita meio feia, meio alegre meio triste, no último ano mais triste que alegre. Não pode ser 100 por cento? Não, não pode, Ana.

Ela ia entrar no chuveiro quando o telefone tocou, pensou em não atender e deixar que a secretária eletrônica se encarregasse disso. Mas estava se sentindo meio só aquela noite e pensou que, quem sabe, não seria alguém com um bom papo?! “Alô, Ana...”. Quando ela ouviu aquela voz, sentiu o suor descer-lhe pelas costas, desligou o telefone imediatamente, precisava fumar e quem sabe beber “ cadê aquele maldito maço de marlboro que esqueceram aqui em casa?Será que ainda tem um finzinho de tequila na garrafa?” Péssima idéia foi ter atendido à aquele telefonema. O telefone tocou de novo, Ana estava muito nervosa, mas resolveu atender:

“Ana...acho que a ligação caiu...”

“Não, a ligação não caiu, fui eu que desliguei, eu achei que não poderia falar com você e, no entanto você ligou de novo, mas a única coisa que eu quero saber é : por que você nunca mais apareceu e quero entender por que me ligou agora, depois de tanto tempo.”

Ah, o amor não correspondido. Ou melhor, foi correspondido e depois abandonado como um lencinho de papel usado. Da mesma forma como ele se apaixonou por Ana e o amor durou por seis meses, um dia ele sumiu. Sumiu de vez, arrasando o coração e a vida de Ana. Arrasando seus pulmões de tanto chorar, arrastando sua alma para um buraco fundo fundo. Para ela, quase não tinha volta, mas este ano era outra coisa....Ia ser outra coisa.

“ Eu queria me desculpar, sou um tolo...Estou aqui aqui em Sampa e queria te encontrar pra tomar um café..”

“Um café???” Ela estava horrorizada pela mesquinhez dele.

“Ana, quero te falar o que aconteceu, te pedir desculpas...te explicar.”

Tudo o que ela queria era aquela metade de seu coração que apodreceu. Sentada no chão com o telefone no ouvido, ela chorava lembrando de tudo de bom que passaram e sofria, como sofria...Havia sido abandonada e agora não tinha forças para dizer não... A voz dele estava tão firme e segura, tão límpida e saudável, Ana sabia que ele não ia voltar pra ela, só iria arrancar mais um naquinho daquilo que sobrava dela.

“Ta, ta bom, eu vou. Em meia hora te encontro no Unibanco.”

Como uma condenada, Ana caminhou até o chuveiro, lavou seus cabelos sem nenhum desejo, passou creme no corpo que passara tanto tempo só. Passou batom e perfume. O que fazer, afinal, não é? O que restava da felicidade que buscava? Todos seus créditos se foram. No carro enquanto dirigia ouvia no rádio uma música triste e seu ano parecia que não iria acabar jamais.

12/12/2007

Vidas Ordinárias IX

João.


Foi no dia 25 de dezembro, morreu com o peru da noite anterior ainda entalado na garganta. A fartura lhe havia sido cara, ou não? Foi num cruzamento, atropelado ainda com o peru no bucho, na manhã seguinte da ceia de natal. Não teve tempo nem de apreciar os restos amanhecidos daquele jantar. Delírios literários. Morreu e ponto. A diferença única daquela morte foi o peru. Que rechonchudo reluzia na mesa, dourado, suculento, indecente de tão grande.

Não era para menos uma morte tão súbita e inesperada. A culpa recaiu sobre a tia que havia insistentemente lhe oferecido mais um prato, um repeteco daquela delicia. Come vai, mais um pedacinho não vai te matar. Mas matou. João está morto e ponto. Foi a gula? Até agora a família se indaga. Se a gula matasse, deveria ter matado antes, bem antes, o tio. Aquele sim merecia morrer tamanha sua gulodice. Sua fome não tinha tamanho. Tinha que ter sempre tudo do bom e do melhor, e bebia e fumava e trepava com a vizinha que todo mundo sabia que dava pro tio. Que era casado, mas sua gula não o deixava parar. Não morreu e está até hoje matando o seu desejo desavergonhado.

Outra possibilidade é que João se suicidara. Morte desejada. O seu presente de natal esse ano tinha sido mais um livro sobre espiritismo, a vida de Allan Kardec, espírito famoso. Não que João fosse espírita, mas achava que, já que as assombrações estão por ai mesmo, melhor saber com quem se está lidando. Pois bem, João pode ter morrido de pena, pena de comer um bicho tão grande e bobo como era o peru. Um bicho que ao se olhar, percebia-se uma alma leviana. E talvez, é apenas uma hipótese, morreu de dó. O danado do bicho não perdoou João e o levou diretamente ao encontro de sua morte. Num cruzamento, logo de manhã, João deu seu último suspiro, lembrando de como foi doce e cruel aquela última ceia. Morreu no delírio da lembrança, mas satisfeito.

28/11/2007

Insônia

Maria passou a noite toda acordada pensando no sol da manhã seguinte. Tinha uma música na cabeça que, neuroticamente, repetia-se: levante as mãos e daí glória a deus... Levante as mãos e daí glória a deus. De repente já era 5:30 da matina, a luz do dia começava a entrar pelas frestas da cortina e agora ela já não podia mais dormir, ouvindo os pássaros, a música incessante na sua cabeça. Levantou-se de um pulo e pensou ela mesma em rezar, poderia rezar qualquer coisa, contanto que a fizesse descansar a mente daquele refrão e poder, pelo menos, cochilar uma hora. Logo já eram sete e meia da manhã, Maria levantou-se, tinha os olhos e os lábios inchados, um peso em suas costas a fazia ficar curvada e sem vontade. Olhou-se no espelho e o que via era um vulto de si mesma. Uma mistura de sono com o desejo de que aquilo passasse por completo. “Não vou agüentar, não vou conseguir.” Tomou uma ducha e enquanto a água caía pelo seu corpo, chorava junto. Um chorinho miúdo, esquecido dentro dela por muito tempo. “Ai que vontade de não ser... De virar água da água e ir pra sempre por esse ralo” Falava em voz alta, depois resmungava qualquer palavra.

Na rua o sol queimava com força seus olhos, Maria sentia sua boca rachando quanto mais andava naquelas calçadas. As pessoas do ponto de ônibus cheiravam a bolo de fubá, o odor do tabaco queimando pairava no ar e de repente ela sentiu um desejo de fumar também. Busca alguém na rua que esteja fumando, lá longe ela vê um daqueles senhores que carregam uma placa no pescoço. Foi até lá “ Moço,o senhor pode me dar um cigarro?” “O fia, só tenho derby, cê fuma?” A simplicidade da oferta daquela pessoa, quase comoveu Maria a ponto de chorar. No pescoço dele tinha uma placa pendurada onde se lia : Seu futuro está em suas mãos. Empréstimos a baixo custo. Ela ascendeu o cigarro, olhou nos olhos tristes daquele velho pobre, pensou que poderia fazer um cheque de duzentos reais e dar pra ele(toma moço, vai comprar uma camisa nova, um livro pra sua filha, um tênis pro seu neto). Por que ela não fez isso então? Por que não doava assim como ele doou seu simples cigarro? Ela já ia dar as costas quando o velho falou pra ela bem assim “ Fia, cê acredita em deus nosso senhor?” “Talvez, não sei bem, acho que sim...Por quê?” “Pega na mão do divino fia, que com ele a gente nunca ta só.” “O que foi que o senhor disse?” “Disse nada não,f ia.” E se virou e foi embora.

Ela teve a certeza de que tinha ouvido aquele senhor pronunciar tais palavras, ou era a insônia, ou ela realmente havia passado por uma experiência religiosa. Quando o procurou com os olhos ele já havia cruzado a avenida e estava descendo por uma rua. Maria teve que sentar, procurou o celular na bolsa, não achou. Ligou a cobrar do orelhão pra sua melhor amiga, a única que poderia acabar de vez com essa hipótese. “Oi Ana, é Maria, escuta, desculpa te ligar, mas eu tenho uma pergunta séria pra te fazer” “ Maria, espero que seja séria mesmo pra ser a cobrar a essa hora da manhã.” Ana não havia deixado sombras de dúvidas que mataria ela ao ouvir sua dúvida. “Ana, preciso saber, você acredita em deus? Digo, pode ser naquela força superior, mas você acredita?” “ Maria, meu amor.” Ana fez um silêncio e quando terminou de pensar, falou “ Deus é coisa de gente apegada, e religião meu amor, é desculpa esfarrapada.!” E desligou o telefone na cara de dela. Neste momento ela realizou que sim, havia solidão no mundo e neste momento, era ela a própria solidão.

O mundo parou a sua volta, o sono tentava entrar pela sua nuca e lutava contra seus olhos. Queria fechá-los, arrancá-los da cara, viver a escuridão eterna daquela noite que ela não dormiu. Sabia que tinha que agüentar até o fim daquele imenso dia insuportável. Tinha que ir trabalhar, sentar no computador, produzir, fazer dinheiro, colaborar com os colegas. “Levante as mãos e daí glória a deus, levante as mãos e daí glória deus...” “Que fazer meu deus?! Meu deus, que deus? Que caralho, cadê o frontal, por favor, moço, um café!” Maria se sentou no boteco e esperou ver se a confusão passava; o frontal pra relaxar, mas o café pra dar uma animada, era como mutilar o cérebro com soda cáustica. Aquelas horas nunca iam passar, ela poderia deixar no bar um bilhete com seu nome e telefone de casa, quem sabe, se morresse pelo menos alguém saberia quem era ela, ligariam pra seus pais. “Pelo menos morreu em paz, fica com deus minha filha”, seriam as palavras do túmulo dela. E morreria só, sozinha. Sem ter dormido o sono que tanto queria, sem ter descansado a sua mente inquieta.

08/11/2007

Meus cabelos crescem
E minhas idéias crescem com eles.
Minhas sobrancelhas crescem
E com elas minhas unhas crescem

Sem parar

Tomam conta do quarto, enrolando-se
A raiz castanha e as unhas vermelhas
Se perdem


No fundo azul


Dos meus lábios quase derramo as palavras
E no tapete se forma uma poça de água
De meus olhos abertos
De minha boca aberta

Água morna

Vem quente lá de dentro do meu peito
Que incha junto com meu desejo
Cresce corpo a dentro e lá fora
Abre-se o céu.

Tamanho de céu

Minhas mãos incham
E já não seguram mais a cabeça
Que ficou pequena demais
Pro tamanho das idéias

Muitas idéias

Saem pelas orelhas vermelhas
Da cor das unhas longas enroladas
Como lava fervente escorrem

E queimam, queimam tudo
De meu corpo sedento.

29/10/2007

Uma resposta

Lá vem.

E o que vem?

Vem que vem, assim:

No encontro de duas almas.

Uma de lá, uma dela.

Ou outra minha, assim:

Nos encontros do mundo.

Corto daqui, e vejo que lá

Também há de tudo isso.

Dos pontos, das vírgulas

Das “gentes”.

Então sim.

Quem bom que sempre tem.

Que sempre vem esse

Tal de alguém

Pra poder por um ponto

No meu outro, daqui.

19/10/2007

Die Gedanken Sind Frei

Os pensamentos são como a água. Podem estar tão parados que vemos refletido neles nosso próprio rosto, passivo; ou estarem tão atormentados que mal se enxerga o fundo. Os pensamentos são como a água, claros, límpidos, ou escuros e amargos. Ou profundos, ou rasos.

Quem pode beber dessas águas sem se afogar? Ou nadar pelas idéias em tormentas, livres ondas gigantes de idéias, tombando, tombando. Quem pode me dizer a onde terminam?

13/10/2007

Era sonho?
Tudo que é sonho é sonho.
E depois disso, só penso:
Não quero acordar para morrer.

E se por acaso não o fosse?
E nem a vida eterna?
E nem amor eu tivera?
Viver amarga e acordada...

Mas pasmem!
Quando os olhos eu fecho
Crio tudo da escuridão.

Viver de sonhos
Viver pra viver
Tudo dentro de mim, ilusão.

10/09/2007

Ventos

Veio de dentro aquele furacão sem dono
Acertou no peito e depois, abrindo para o espaço
Tomou pelos braços e levou com desespero.
Tamanha a força dos ventos projetados
Seria impossível deter tal destruição.
E levou tudo o que havia por perto:
Amor, respeito, alma e coração.

Sobrou uma brisa de desgosto que veio
Varrendo a poeira fina aos poucos
Que sobrou em cima da mobília, no chão
E em todas as coisas do mundo.
Um silêncio profundo se apossou então
De dentro pra fora e de fora pro céu.
Nem o sol podia escondê-lo em suas sombras.

Nem as sombras eram suficiente breu
Perto das escuras esquinas avassaladas.
Dali nem flores mais brotaram, nem nada.
E sobrou somente o chão de terra
E hoje as janelas fechadas choram.

30/08/2007

Diálogo

(Um trago)

Você sabe, já leu aquele texto do Cortazar...Sobre os coelhos? Sobre aquele cara que vomita coelhos e sem nenhuma razão ele passa a amá-los? Ele passa a amá-los porque é aquilo mesmo, uma coisa de dentro pra fora, só sua, pessoal.

Mas ele se mata no fim, quer dizer, eu acho que ele se mata. Foi o que eu entendi.

( Um trago)

É engraçado tudo isso. Uma amiga minha falou que após ela cair da cama, ela teve uma revelação. E essa revelação só poderia acontecer nestas circunstâncias, você ta me entendendo? Não existe revelação que fuja a esta regra, e ela ainda completou: “Aquilo foi místico, tanto quanto o meu desconhecido fim do dia”.

Tanto quanto o meu desconhecido fim do dia. O real deixa de ser real quando a gente vive o passado ou o futuro, que não existem. Você não acha isso estranho? Saber que, depois de agora é tudo ainda uma grande mentira.?

(A fumaça do cigarro envolve o quarto, o olhar pára fixo no teto)

Eu, particularmente, não acredito que exista um futuro. Essa forma desconexa e esquizofrênica que nos faz comprometer-nos com coisas que também desconhecemos. É tão frágil essa linha que une o agora e o que será que, o melhor seria permanecer, nesta posição, eternamente.

Mas daí eu me lembro que ainda não comprei as flores nesta semana. A semana é futuro, virtual, portanto não existe, mas eu tenho que fazê-la existir, senão jamais teria comprado flores na semana passada, e aí não poderia as comprar essa semana.

Mas as flores, assim como o meu fim do dia, morrem, suavemente, semana após semana.

(trago longo)

Eu deveria comprar cristais ao invés de flores. Cristais são bonitos e super baratos. Cristais me lembram chapada diamantina, e essas coisas da natureza que me acalmam. Verde, verde, verde. Azul, flores, formigas.

Eu sei que isso ta parecendo pedantismo, mas diante das circunstâncias, só me resta pensar no horizonte além da minha janela anti-ruídos.

(piscada, tragada, o olhar fixo na janela)

Existem pessoas que não gostam da natureza? Sim? Não? Eu acho que sim, acho que existem pessoas que abominam este contato direto com a fauna e a flora. Só de pensar em tirar o sapato, caminhar a esmo na beira de uma praia as deixam aflitas .

Mas tudo bem. Tudo bem mesmo. Ninguém tem que gostar da natureza, porque nós somos a natureza. De algum modo, caminhar sobre a grama e admirar os pássaros não passam de afirmações redundantes. A gente não se nega, da mesma forma que é impossível eu falar: eu não existo.

E daí? Você ainda ta me ouvindo? Eu to te irritando?

(levanta da cama, abre a janela)

Acho que eu deveria escrever tudo isso que to te falando em algum lugar, seria legal não esquecer todas essas coisas bonitas e sensíveis que estou pensando. Seilá, começar a escrever um livro existencialista que detonaria Sartre e Nietzsche. Mandar pra algum concurso da faculdade de letras, ficar famosa enfim.

Gozar de todo o prazer da vida pública, ser chamada para coquetéis e jantares. Usar um nome artístico como La Femme Trousseau, por exemplo.

Uma coisa bem difícil, assim ninguém vai ter coragem de me perguntar porque cargas d’água eu resolvi ser escritora.

21/06/2007

Para Rafael

Menino
Da onde vêm seus sonhos?
sonha com tudo que pode sonhar.
E se não te bastam as estrelas, o céu
Vai além além.
Na rabiola do cometa, na corrente de ar.
Sempre olhando pra cima
Pro teto da vida, sem esperar
Que talvez um dia cresça.
Seus pés inquietos
Correm de um lugar a outro,
Nunca param ou descansam,
Nem dormem.
Da onde vêm seus sonhos?
Pra onde vão suas palavras?
Sempre atentas e prontas para saltar
Da sua boca aberta aberta.
E seus olhos, menino
Focando tudo que há de perto
De longe, de belo e de feio.
A sua inocência se confunde
Com o seu nome.
Rafael, nome de arcanjo
Mensageiro e curador.
Assim é você:
De asas abertas, indo sempre para o alto.
Mais alto mais alto.
Como um balão
Feito de ar e sonhos.
resolução quatro: alma lama.

Há uma lama dentro de mim.
Na alma, ela chama em chamas.
E na cama, a lama em minh'alma
canta em voz alta os sonhos ao dormir.

13/06/2007

Paixão!

Estou Sofrendo.
O que tenho?
Paixonite Aguda.
Os sintomas, muitos.
As horas sofridas não cabem no relógio.
Só penso no amado em cada tic-tac de hora.

Todas as cartas são para ele!
Até a inspiração esse amor devora.
Os poemas? Só de amor escrevo.
E claro que dentro do peito
o coração palpita desajeitado!
E até da água que bebo
dedico a ele todos os goles dados!

É paixonite do que padeço!
Da onde veio tal virose?
Me pegou de jeito um dia.
E até hoje sinto ela aqui dentro.
Sorrio toda hora, sintomática reação.
Não presto atenção nas palavras
que os outros me falam.
Nem presto atenção no jardim
pois há dentro de mim uma outra rosa!

Ah como estou sofrendo!
E sofro mais ainda quando ele
não está por perto.
Daí sim, calafrios e tremedeiras.
Suspiro no canto sem razão nem por que.
Meus olhos ficam profundos e lânguidos.
E tudo o que desejo é poder estar:
Ao seu lado, dentro dele, respirando
o ar que ele respira, sentindo o amor que
dele expira.

Ah! Não sei se agüento!
Não sei se posso mais este tormento!
Doutor deveria tu curar esse sentimento,
curar de mim essa paixonite aguda.
Pois não como nem penso.
E o que resta de mim é só poesia e açúcar!

05/06/2007

O que é Causal?

Amor Causal: Adj. 2 gén., relativo a causa;
que exprime causa;
s. m.,
razão;
origem;
motivo, proveniência.

Andava tão tristinho e cabisbaixo,
Sem aquele amor, a razão não existia
Sabia de cor, todas as suas cores preferidas.
E ainda assim, o destino foi vigário.

Como foi árdua a conquista!
Com flores, jantares e promessas.
Aquele amor, sofrido deveras,
Merecia ao menos uma jazida!

Foi só por ele que feliz a vida corria
Brilhava o sol de cada manhã azulada
Estampado na pele da querida amada
Tudo era tão feliz, e o amor uma piada.

Mas agora, sozinho na caminhada
O amor sem rumo vagava obsoleto
Onde foi que ele perdeu o bom senso?
Por onde andas a razão almejada?

Já não podia mais com esse medo
De ficar só, sem razão e sem amor
Como alma penada em busca do senhor
Ficou ele no mundo sem o seu desejo.

E agora o pobre vaga a esmo
Olhar perdido no horizonte cinza
Lucidez, aquilo já não mais tinha
Deixou-a morrer, esquecida no tempo.

O que é Casual?

Amor Casual: Do Lat. casuale
adj. 2 gén.,
que depende do acaso;
fortuito;
eventual;
acidental.

Foi assim, cruzamos os caminhos sem nos ver
E só quando você chegou à outra esquina:
Que coisa de filme de teve!
Olhou para trás e disse: Que linda!

Nossa, Obrigada! Pensei ainda
Que fosse para mim tal elogio.
Mas você grudou a cara na vitrina
Ouvindo no rádio uma música dos beatles.

Daí eu disse: Essa eu nunca tinha ouvido.
Eu cheguei mais perto e vi seus olhos
E seu rosto alvo estava todo sorrindo:
Poxa, essa é a música que eu mais gosto!

Quer ir lá dentro ouvir os outros novos?
E me puxou pela mão sem perguntar.
Dentro da loja por entre vinil e mofo
A vontade que eu tinha era só de dançar.

A gente se olhava sem se falar
O que tocava era tim maia: Bem querer.
O que a gente sentia, não tinha mais lugar.
O amor ali nascia, e a gente sem perceber.

31/05/2007

Amor: Filosofia ou Suicídio?

- Amor é casual.

diria uns.

- Não, Amor é causal.

Senzala

Todos os dias acorda no pescoço.
Às seis da manhã:
Lavar o rosto, acalmar no corpo
o calor da febre terçã.

O corpo rijo como um cavalo,
marcas de aço no seu rosto roto.
Negro amargo, sem dentes
na boca de comer arroz e osso.

De morrer cada dia um pouco.
De encher seu bucho morto.
De morrer negro no lodo

Igual a cor da sua pele,
remexe dentro do poço,
No estreito poço o seu corpo cavalar.

Definição

O amor tem cor de azul celeste,
claro e leve, voando solto
como oxigênio no meu corpo.

O amor é quente e bobo,
como um bebê ao nascer.
E azul celeste, leve.

Leve e bobo
De um azul celeste.
E breve.

Breve,
tão breve,

que me vem

como

uma

e
s
t
a
ç
ã
o
...

Domingo

Meu corpo cansado
estampando o vermelho rosado
dos último raios de sol.
Como uma fotografia na fina película
fixa-se em minha carne,
em meus ossos, e minhas unhas
tornado-se mais pesada
mais cansada e mais completa.
Cansada e feliz com o tom de
romãs rachando as cascas
maduras no pé.
Sinto-me como uma fruta madura,
escura e robusta.
Descansada por ter o sol se ido,
e jogado por cima frescas brisas
marinhas ao fim do dia.
Me sinto do mundo o umbigo,
nesse último soprar de domingo
deixando-me levar todos os pensamentos
fulgazes]

Cuidado

Às vezes eu penso:

Meu amor não agüentaria ser jogado assim no lixo.
Portanto que sejam verdadeiras todas as juras.
E se for para ser breve, que seja intenso.
Ia doer, talvez doesse só um tiquinho.
Talvez nem dor eu sentisse.

Mas ia ver a feiúra
De um dia sem pintura.

Então,
Não se iluda.
Mesmo que seja mentira,
Aquilo que na sua boca se insinua.
Me faça acreditar que naquele momento,
Tudo o que for para ser, vai ser por inteiro.

29/05/2007

De Camille - porque eu acho ela muito sensível

"Quand Je Marche"

[When I walk, I'm walking straight and when the night falls, I fall as well.]

Quand je marche, je marche
quand je dors, je dors
quand je chante, je chante
je m'abandonne

Quand je marche, je marche droit
quand je chante, je chante nue
et quand j'aime, je n'aime que toi
quand j'y pense, je ne dors plus

Je suis ici
je suis dedans
je suis debout
je ne me moquerai plus de tout

"Entends tu, m'as-tu dit,
le chant du monde", alors depuis
quand l'aube se lève, je la suis
et quand la nuit tombe
je tombe aussi

Je suis ici
je suis dedans
je suis debout
je ne me moquerai plus de tout

Quand j'ai faim, tout me nourrit
le cri des chiens, et puis la pluie
quand tu pars, je reste ici
je m'abandonne
et je t'oublie.

28/05/2007

O amor é para ser passado e repassado
E quem quiser julgar- que o sofra
Ninguém aprende com a cabeça, mas com a carne
E a carne não é fraca, ela é estúpida
Sair do poço é sempre um ato de heroísmo
E ser herói, não é ser forte
É ter coragem de ser fraco.
É por, repor, transpor, sem dispor.
Se as experiências fossem transmissíveis
Este seria um mundo de sábios
Mas só nascemos de nosso próprio parto
E só vivemos de fato quando já
Morremos mil vezes e mais uma.

Ivan

Olha, eu fiz uma poesia pra você:
Ivan, que rima com Imã
Que me pega bem nos botões.
Ivan, que rima com romã
Que rima com eu e você
Mesmo que isso não rime.
Eu coloquei no poema.
Porque eu te prometi um poema.
E aqui ele está:
Ivan que rima com céu
Que rima com um melzinho doce
Do seu hálito.
Ivan, rima comigo.
E eu assim fico.
Doida pra te escrever.

Vou escrever mais poesia

Vou ser mais poeta e mais rima

A Inspiração não morreu ainda

Dentro de mim lateja

Como o papel molhado em tinta.

Sebastian

Quando se fez a primeira luz da manhã,
Sebastian saiu correndo pelo gramado.
Pegou a bola, jogou no gato, uma pedrinha,
Uma folha e um galho
E lá estava ele pirateando.
Pequeno como era, sem sapatos e sem camisa
Peito estreito e branco
Sebastian era quase um menino
Mas era mais menino que os outros do bairro!
Gostava de dizer, assim mesmo ao acordar:

Mamãe quero leite da vaca
E la ia ela correndo buscar para o pequeno
Um copo cheio e morno direto das tetas.
E Sebastian sorvia aquele mel
E sorria e cantarolava
Na alegria da infância serena
Ser Sebastian para ele já bastava.

23/05/2007

cigarro

É no cigarro que eu trago onde está o veneno
São nos objetos do quarto onde está o frio
E mesmo assim dentro de mim não há nada
Não há nada em lugar algum.
E se então eu tirasse a pintura do rosto
E deixasse uma vez só mostrar a pele
Deixar ela respirar o pó do mundo
Pois não há nada em lugar algum.
Isso não é dor sem sentido
Talvez melhor assim preenchido
Só as portas aqui fazem barulho
Uma atrás da outra elas se fecham.
Não há mais nada em lugar algum.
O fim desta tarde é de cinza escuro
Nem a luz consegue chegar aqui
Neste silêncio profundo
Onde só as portas fazem barulho.
Onde só os carros fazem barulho.
Onde só a chuva faz barulho.
Neste fim cinza escuro.
Pois não há mais nada.

21/05/2007

É o Fim

É o fim de tudo
E lamentavelmente a vida
Nos mostrou a verdade
Que é dolorida
Que é pessimista.
E como te dizer que
Depois de tudo o que passou
Ainda te amo
Mas não posso!
Não posso mais sofrer assim
É o Fim.
Por quais caminhos
Nos enveredaremos agora?
Mudastes tanto a tua rota
E me isolastes por tanto tempo
No porão do esquecimento
É o fim.
Custa-me a enxergar
A luz novamente
Enxergar por que fomos
Tão errantes
Em nos embalarmos com essa
Mágica música do Amor
Que parou
Que passou
Que voou
Para longe de nosso controle
Triste fim para um amor assim.

16/05/2007

O poeta abandonado

Só mais uma vez
e depois pode partir
não precisa se despedir
ou beijar a minha tez.

Sonhar um querer
e ter de ti pesadelos
só mais uma vez
tentei com tanto zelo

Agora deixe que eu morra
sozinha sem teu olhar
secando minhas pupilas

Só mais uma vez poderei
agora que enfim se vai
morrer morrer morrer.

Poesia Moderna

Tu
Tu e eu
Nós
Apenas nós
em baixos tons
Minha voz
Procura teus ouvidos

Sonolência

Dormindo se quedam os inocentes
sem peso, sem medo
Como tolos perdem a alvorada
como tolos ficam no travesseiro a sonhar
com um sol que já nasceu
Esperando a noite chegar para enfim
acordarem nas estrelas do céu.
Sempre nas estrelas
Sempre na Lua
pequenos seres do espaço sonífero

dormindo
dormindo
dormindo

15/05/2007

Resolução três: menos sal e mais amor.

Joana.

Olhou para fora e ainda chovia muito. Enfiou a cabeça sob o travesseiro e tentou dormir mais um pouco, não conseguiu, óbvio. Dois Tylenóis de 750 mg, café preto dois dedinhos no copo, uma garrafinha de água para tentar aliviar a ardência da cafeína. Realmente seria impossível pregar os olhos de novo, e ainda eram apenas 7 e 30 da manhã.
Pegou o telefone, discou, esperou, desligou; daí ligou de novo:
"Alô, André? Eu te acordei? É, eu sei que tá cedo, mas é que eu tomei uma decisão...Qual? Ahm..."
Ligou pra falar mas não falou, inventou uma historinha qualquer.
"Você vem almoçar aqui hoje?Vou fazer aquele macarrão, aquele que você gosta tanto."
Já havia uma semana que não dormia, um misto de medo infantil e ansiedade. Escreveu no seu diário que o ser humano quanto mais pensa menos evolui e realizou que a evolução depende muito mais de um estado de deixar-se estar do que realmente tentar resolver os problemas em questão.
Uma partícula de onda gigante, era só ela e no entando precisava de toda uma massa de energia para poder mover-se. A humanidade, refletiu. Não seria fácil levantar-se da cama hoje, tinha medo de começar o dia e não poder terminá-lo como queria, ia dar tudo errado.Tinha mais que certeza, mas não podia deixar que tudo isso a tomasse por inteiro. Tirou o pijama na cama mesmo, saiu nua para o chuveiro, banho frio, esqueceu de escovar os dentes e saiu direto pra rua.

O Amor em Três Atos.

Um dia ela me pediu para escrever um poema sobre ela:

“Amor, porque você nunca escreveu um poema sobre mim?”
“Eu não sou bom com as palavras..não sei rimar amor e dor”

Eu sempre a achei meio burra, mas às vezes, me emociona a burrice dela. Me emociona como ela me olha vazio, buscando compreender as sutilezas que a vida tem. Parece um cachorrinho, uma gatinha. Um pássaro até...Os pássaros tem o olhar animal mais burro que já vi.

“Mas você é fotografo, então é artista, e todo artista sabe escrever poesia.”
“Não querida, isso não quer dizer nada. Me passa o café, por favor?”
“Não. Eu quero que você escreva algo sobre mim. Para a posteridade”
“Você ainda não morreu Ana, então eu não preciso escrever nada sobre você.”

***

Quando eu menos percebi, ela já estava acordando ao meu lado. A primeira vez foi chocante, quase idílico. Ana...É vago na minha memória o dia exato em que nos conhecemos. Pode ter sido num café, perto do meu trabalho. Ou na vernissage de algum pintor de quinta em alguma galeria de quinta. A verdade é que não tenho boa memória. Poderia ter sido qualquer outra mulher acordando ao me lado. Qualquer uma. Se elas não abrem a boca, eu praticamente apago os vestígios delas em minha vida. Mas eu me lembro a primeira coisa que Ana falou quando acordou:

“Nossa, aquilo é um pássaro? Que coisa estranha...”
“Não, parece um pássaro, mas na verdade é um tennis numa árvore... Uma fase minha meio... abstrata.”
“Ah... abstrata é? Eu também tive uma fase abstrata, eu te falei que adoro pintar?”

Foi aí que eu olhei melhor para ela, o cabelo desarrumado, pintado de um vermelho vulgar, não conseguia associá-la a nada, nem a ninguém. Uma estranha que gostava de pintar.

“Eu pintava umas manchas, mas isso era na época em que eu não sabia pintar, agora que eu fiz o curso, quero pintar retratos das pessoas, especialmente das minhas amigas”

Enquanto ela falava, eu acendi um cigarro.

“Você fuma?”
“Não fumo não, cigarro estraga a pele.”
“Então vamos trepar.”

A trepa foi ótima. Adoro o cheiro amanhecido da mulher. Perfume doce com suor, com hálito. E foi por isso que me apaixonei pela Ana, ela era barata, mas muito gostosa.


***

O que eu entendo como amor é simples. E por isso amo a Ana. Simplicidade é o nome do jogo, do jogo dela. Faça as perguntas certas, responda vagamente, trepe três vezes por semana. E quando acaba, tem que acabar de vez. Como um dia que amanhece. Esse lance de guarda a calcinha, fotos, frasco de perfume, é coisa de apaixonado não correspondido.

“ Tira uma foto minha, amor. Você tira foto daquelas modelos todas, mas não tira as minhas...”
“ Não posso fazer isso com você Ana.”
“Por quê?”
“Porque no dia que você me deixar, ou no dia em que tudo acabar. Eu vou olhar praquelas fotos e vou ter que te odiar.E eu não quero te odiar, só vou querer te esquecer.”
“Você é tão romântico, bruto, mas romântico.”

Essa foi a última vez em que trepamos. Mulher burra cansa também. Eu olhava pra ela, dentro de seus olhos de vidro azul e não conseguia enxergar sua alma. Talvez a Ana não tivesse alma. Ou tivesse alma de gato. Perdi o tesão nela quando ela pediu pra eu não a esquecer. Mas já esqueci. Até do seu cheiro eu esqueci. Só restou mesmo um pedacinho de guardanapo com uma poesia que ela escreveu.

“ Se você quer saber o quanto eu te amo, multiplique as estrelas do céu, pelas gotas do oceano.”

A Ana era muito burra, mas era sensível.

03/05/2007

Penso Logo Desisto

Para alguns verbos
Eu sou apenas um ser
Sem estar, nem presente
Apenas na mente
Ou num passado distante
Quase inexistente
Sou, não porque existo
Me defino apenas como um som.

Sadomasoquismo

A dor existe para que o amor seja verdadeiro
A dor existe para que a verdade ame
e dê sentido ao que logo se extingue
depois de cada beijo
cada ferida marcada no beiço
cada estalar de cada dedo nos seios.

Só prevalece o silêncio
para que se sinta desmiuçadamente
os suspiros prazerosos
as lágrimas cândidas
do amor sofrido.

Nem a solidão dói mais
Nem o abandono entristece
Pois o que não mata, fortalece
esse coração que só ama.
Ama e ama e nunca desvanece

aborto II

Sujei minhas mãos de sangue novo
e já não mais sei como pensar nisso
abortei de mim um ser sem rosto
sem nome

Não saberia o que fazer
por desespero, desisti
calei-me e chorei a cólica do ventre

"Nunca pensei que..."
"Não, não seria possível..."
"logo eu, um ser tão pacífico..."

Deixei-me levar pela tormenta
será que sou uma assassina?
Será que simplesmente aparei
as pontas tortas do caminho?
Tão confuso
Tão só, tão sombrio...
Hoje apodreço por dentro
uma flor em decomposição
não existe mais sentimento
onde antes era só desilusão

Meu corpo, esse imenso balão
flutúa solto no ar rarefeito
por dentro ozônio e carvão
por fora só sorrisos de efeito

E adormeço desse jeito
amuada em meus braços
sozinha no frio do leito
sonhando com enormes vasos
sonho com águas de fundo
sonho com águas de fundo raso
que poderiam alimentar a flor
pois dentro de mim eu cavo
a vala onde deita a dor.

Back to mine

Back to me

Back to my home sweet home

That’s all I want indeed

But for now I just know

I just can know one little thing

That I’m on my own, no more with you

Once I’ve been enjoying truly

Sadness is human, loneliness it is too

But suffering no one can feel

Is such a big pain that’s unbearable still.

But for now nothing really has changed

I still feel the obstacle that I put on my way

Don’t cry there, I wont cry here

We have to forget ( and forgive) together

Those moments of happiness

A andré

O confete da minha saudade
André, mal lembro dos teus olhos
-quiças sóbrios?
De você só tenho números em outras agendas
Poderia se ter mantido mudo
mas não o fez.
Te dou dez cavalos, André
E você fica comigo.
Vou à praia, ao ibirapuera
a um show qualquer, André.
Por quê não me ligou mais?
Agora somos (os dois) incapazes.
Ouviríamo jazz
E eu deixarei você continar sendo o que é.

aborto

Agora embalo no ventre a dor e a cólica
Temo toda vez que vejo o sangue ralo vermelho
Que desce ainda pela memória, nas mãos, nos meus peitos inchados
O meu corpo é agora um cine-ilusão
Depois, antes e durante
Os hormônios me dizem ; sim, sim e não.
Será que estou ou não?
Não é para rimar esta triste poesia
É só para aliviar a ausência da presença
Que engulo todo dia como uma hóstia sem poder falar
Fui eu.
Neste corpo frágil
Arranquei toda a era daninha
Revolvi a terra fértil e deixei que tudo acontecesse
E o pior é que não estou sozinha
Mas o corpo ainda é meu
E só em mim tudo, tudo, absolutamente tudo.

Ensaio sobre as Mãos - baseado em Vinicius

"De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
e das bocas unidas fez-se a espuma
e das mãos espalmadas fez-se o espanto"
e das mãos espalmadas fez-se o encanto
tornou-se os olhos d'alma
um breve susto ao tocar o mundo
com as pontas dos dedos
ao sentir que tudo a sua volta estava
e estará em alto relevo
um braile romântico
e pensar que mesmo surdo ou mudo
consigo todas as músicas cantar
fazer das mãos côncavas conchas do mar
onde ressoam as letras
as palavras e o som
tenhos os olhos em minhas mãos
tenhos os ouvidos em minhas mãos
tenho em fim,
o começo e o fim de meu corpo
e então, por mais que eu busque
um lugar neste planeta sensação
tenho, acima de tudo
o mundo em minhas mãos.

Pé de Caqui

O que me impressionou hoje
Foi um pé de caqui
Com os cachos cheios de frutos
Frutos verde-amarelos que não comi

Não comi porque estão adstrin
Adstring, gentes
Nunca havia visto um pé
Desse caqui amarelo verde

Todos juntos num enorme galho
Há mais de um por ali
Ali, onde nascem os caquis
Impressionantes cachos cheios

Me saliva a boca
E hoje a noite vou sonhar com eles
Sonhar que estou em seus galhos
Comendo sua carne e matando a minha sede.
Pesado
Pesado
Pesado e profundo
Aço único
Cortante
Passa fundo
Úmido e certeiro
No escuro
Pesado
Pesado
Pesado e profundo
No escuro
Uiva o urso
No escuro
Durmo o sono
O sono pesado
Pesadelo
E só.
É outra vez chegada a hora
que tanto esperávamos
A natureza viva [as pedras eternas]
A tarde morta [cansaço]
o calor [mormaço]
o humor [sarcástico]
o rumor [baixo]
o som [um tom]
o Omn [trancender]
tudo zem

Sem medo
de
morrer.

Piadinha

Rir,
mas que nada!
Marmelada se te disseram
Que felicidade estás na CARAS.

Guerrilha

O meu coração é a prova de balas
E meus braços são de aço
Minh'alma de marfim
E não importa o faças, nada vai perfurá-la

Meus olhos são de jade
mas meus lábios de cetim
Então não tente fazer nada
pois nós dois sabemos do poder das palavras

E o quanto elas pode ser como navalhas
Eu sei que suas armas são fracas
Todas elas sem muniçã0

Fique atento, meu bem
Eu sei de todas as suas estratégias
Para sangrar meu pobre coração

Antagonismo

Digas aos dinânicos
que não me levantarei hoje!
Aos padres
que vão para o inferno!
Às damas e senhoras (com todo o respeito)
pervertidas reprimidas!
Aos assassinos
que continuo viva!
Para as crianças
diga apenas que isto é uma dança.
Aos rafaéis, daniéis, bernados e a todos
aqueles do sexo oposto,
que menti de coração!
E a todos os inimigos (se me permitem)
que estou do vosso lado.
Diga ao mundo que hoje é um domingo e feriado,
e que estou aberta a todo tipo de comércio,
e a todas as controvérsias!

vibração

Venha agora
sente-se do meu lado
sinta
a vibração que inspira
toda vez que me toca.

Blue blue blue

Olha quanta lorota tá rolando no seu rádio,
você chora a toda hora quando vê o noticiário,
E te perguntaram se está tudo bem.
Você pensa duas vezes, se engole, se devora,
mas responde triste: Este mundo não tá nada blue.
Mas mesmo assim,
você vai ao supermercado e compra qualquer coisa
rotulada, válida, fora de hora.
E te falam bem baixinho quando vai chegando ao caixa
que esse mundo não tá nada blue.
Cadê o seu sorriso quando mais precisa dele?
Daí você se lembra dos dentes que não tem,
e dá um sorriso banguelo na frente do espelho.
Se lembra do encanamento, do chuveiro, do seu sexo
e do mal cheiro que sai do ralo.
Mas que caralho!
Esse mundo não está nada bem!

Nostalgia do Abandonado

Mergulho em meus pensamentos
me afogando nas tuas pesadas palavras
e sua falta bate em meu peito
fazendo rolar duas grossas lágrimas
O vazio toma conta de mim aos poucos
e me calo.
É como se eu estivesse só neste mundo
e a única coisa que restasse fosse a lembrança
tão nítida, tão real do seu sorriso.
Grito! Mas ninguém me ouve.
Meu desespero é tão grande amor,
e a dor me espreita pela janela.
tenho tanto medo!
O meu receio, é como o frio
que penetra pelas minhas costas e
me toma pelos braços.
Você está tão longe, amor.
Mas sinto o teu calor nos meus lábios,
Ah, não sei como expressar a sua ausência.
Áspera ausência.
Me perdoa, diga que me perdoa.
Pois não durmo sem antes chorar
lamentar o meu erro.
Tú és tão único quanto um coração
a um pobre homem.
Me perdoa.
E serei o único ser que sorrirá
quando o breu da noite cair
sobre o mórbido dia.

Poesia Concreta

Um monte de cimento e pedra.

02/05/2007

O poeta que ficou triste

Me cansei de falar de amor
de rimar amor com cor
e de chorar.
E escrever enquanto de esperava
sobre coisas da vida
sobre a sacada
sobre nossas brigas.
Me cansei também de falar de poemas,
de jogos de palavras isentas,
de sentimentos inventados.
Me cansei de ficar aqui,
parada, pensando.
Pensando no que escrever
nos poemas que falam de prazer,
e de sexo de sabor de objetos.
Não quero mais criar e recriar palavras
duras palavras que me esforço em relatar
nas linhas do papel.
É tudo tão sutil, percebe?
Cansei de observar as cores do outono
E dos outros que passam por mim.
Ando tão deligada,
que se pudesse não faria mais nada além de dormir.
Não quero mais pensar no que falar,
antes de agir com atos cada vez mais banais.
A vida parece um filme colorido,
que percorre no seu próprio ritmo.
Terminando por aqui eu digo:
Não quero mais soletrar sobre o céu
azul da cor do mar.
Quero me afogar!
Sim, isso me faz sentir viva,
Enquanto eu digo aos outros: não desista!
Desmaio sem ar no meio de meus pensamentos
fulgazes.

Soneto da Saudade

Das lembranças apenas sombras,
horas e horas apenas
Da boca apenas o sorriso,
apenas os olhos, fixos apenas.

Apenas o azul do céu
apenas um simples céu,
azul apenas
Deixado pelas ruas amenas.

Você deixou aqui
uma parte de ti apenas
que féri sem sentir pena.

Apenas algumas cenas
estreitas e pequenas,
apenas saudade.

LAUGH

Diga "rárá"
Vamos, pode rir.
Ria da minha cara
Ria do meu corpo
"rárárá"
Do meu péssimo papel de protagonista
Do meu mau gosto
Das minhas gírias
"desires"
Mas diga,
mesmo assim diga:
Que fui linda quando queria
Que ao menos me desejou.
Ria.
Ria enquanto tenha dentes.

Sentindo ( sentido)

Venha,
faça uma síntese de mim
me sinto tão só.
Olhe,
escreva um resumo de
minhas lágrimas
estou tão amarga.
Percebe?
Mostre-me,
dê-me uma chance
de me deitar no seu colo.

Verbos

Palavras machucam mais que espadas
Fatos matam mais que falsos abraços

Estou sangrando sozinha conjugando
todos os atos
Todos os verbos que te tua boca
saltaram

me afogaram

Soneta da Sala De Jantar

A mesa vazia
as cadeiras frias, contidas
de uma madeira preta
rachada, calada, sozinha

O chão de verniz
na sala de jantar
reflete faces vis
de momentos banais

A toalha rendada
escondendo as fendas
velhas e feias da mesa

A sala sombria
assombrada por reles fantasmas
sentados sobre o pó.

Ira

Me cansei das baboseiras
tô cansada da tua cara
to cansada da tv
to cansada desta casa
Por mim mudaria tudo
colocaria um muro
entre eu e você
Atearia fogo no armário
faria um escândalo
Seria deportada
Assassinada
Por isso me cansei desta porta
vou joga-la fora
e fugir para longre daqui.

Soneto do Poeta Apaixonado

Foi você quem roubou
este pobre coração
o colorido das plantas
o ritmo da canção

O brilho do sol
O frio da estação
então foi-se embora
sem dizer a direção

Restou-me apenas a solidão
um soneto e um refrão
apenas estes poucos versos

Porque você roubou até os verbos
e agora não faz mais sentido
caminhar sozinho pela escuridão.

Imagem

O gosto das lágrimas que são tão ásperas
eu sinto na boca descontente
com o peso ardente de meu corpo desforme
com contornos sobressalhentes.
Na frente do espelho observo dedo por dedo
cada detalhe me é revelado
cada esquina minha nua, triste, assustada.
Vejo a minha silhueta na meia luz do quarto
e vejo cada erro considerável
que ficou pregado na minha memória.
Em todas as partes, nos joelhos, nos calcânhares,
uma insatisfação imensa me dá um arrepio.
Sinto minhas mãos pequenas
tão pequenas...
Passo-as nos cabelos, nos meus poucos cabelos
que escondem meus pensamentos de sabor azedo.

Miopia

Procurava por um ponto de vista,
um ponto-isca para equilibrar-se
e não via, mesmo forçando
sua mais nítida perspectiva
Uma imagem sequer perfeita, ou vesga.
Imagens duplas, ilusões multiplas
Apertada os olhos, os pulmões, a boca
apertava os dedos, os medos, os tendões.
Mas nada se formava na sua retina.
Estava tão perdido, sozinho
enroscado no anti-realismo
projetado pelos seus neurons
neutrons e elétrons.
Seria ódio? Seria Amor?

Soneto

Só um soneto de dois quartetos
Dois verbos e dois tercetos
E talvez alguns termos sinceros
E uma pitada de dor no peito

Só um soneto resumiria tudo!
Faria de uma novela, um ato
Dentro do pequeno palco escuro
- Mas que sonho açucarado

Pareço até um velho burro
Sonhando com este soneto
Que não existe neste mundo

Apenas dentro de meu tormento
Queria eu escrever um soneto
Que terminasse sorrindo e vermehlo.
Cai no abismo de mim
Assim, tão sofrido
Tão sem fim.

Queda livre
Em Vão
No abismo de meu


Coração
Resolução dois : Só a Poesia pode me salvar.

Não Somente

Não te deixarei roendo
unhas no escuro quarto
engolindo soluços como sapos
esperando alguém te chamar.

Não deixarei te machucarem
te estuprarem, te arrancarem
o coro do corpo com a dor!
te marcarem o rosto com picadas letais

Não!
Não te abandonarei às feras
no meio da arena repleta
de risos banais

E te ver morrer lentamente
cada parte de teu corpo
dócilmente
se ar.
resolução um : Mais água e menos armas.

24/04/2007

Terapia

Ela se deitou no sofá, esticou as pernas até alcançar uma almofada e ficou se olhando deitada no espelho da parede. Uma parte do vestido dela escorregou de seu colo e tocou o chão. Com uma das mãos segurou a ponta dele e ficou brincando, contornando os desenhos da cerâmica do assoalho. Os dedos dos pés estavam inquietos, torcia e retorcia, estralava, esticava.
Preciso de terapia.
O outro braço tampou seu rosto. Só se via o perfil do seu nariz fino, de seus lábios finos de seu queixo fino. Ela toda parecia um risco de grafite numa tela branca.
Preciso de... De alguma coisa. Talvez de uma bicicleta. Mas acho que a terapia seria o mais apropriado.
A água do vasinho de flores estava escura e com partículas de sujeira, a planta ainda tentava viver, umas margaridas.
Você tá me escutando?
Uhum.
Você realmente escuta alguma coisa do que eu falo?
Terapia, você falou que precisava de terapia.
Não, eu falei que você me entedia, e que por isso eu preciso de terapia.
O seu rosto se virou pra mim, os olhos fechados, os dedos dos pés voltaram a se contorcer mais rápido.
Então você mentiu, você é uma mentirosa.
Seus olhos se abriram e me fitaram pra logo em seguida fecharem de novo, o braço voltou a cobrir seu rosto.
Jamais acredite nas palavras de um poeta.
Você nunca me falou que era uma poeta. Nunca vi nada seu escrito em lugar algum.
Eu não menti, mas eu precisava nos salvar. Me salvar, talvez. Precisava dizer pra mim mesma que você valia a pena.
E então, qual a conclusão que você chegou?
Que você é um chato.
Depois de três anos?
É.
Você não precisa de uma terapia, o que você precisa é de uma foda.
A gente fodeu ontem.
Não de mim, da vida. Sua cretina.
Você não pode ter medo de minhas palavras. Quando eu disse que te amava, aquilo foi um sonho e eu tive que fazer dele uma realidade e agora, agora eu cansei. Cansei de ser sua mulherzinha, cansei de jurar amor e de olhar pra frente e ver somente isso. Eu, você, eu, você, eu, você. A eternidade é coisa de religião, eu não quero morrer nesse paraíso, nesse apartamento, olhando pra você e pensando...
Pensando que foi tudo um erro?
Arrependimento é coisa de gente babaca.
Pensando o quê?
Eu não posso ser sua, é isso.
Ela se sentou, acendeu um cigarro e deu uma tragada bem longa. Depois se levantou e como se fosse somente ume espírito foi embora, deixando um perfume de lavanda e tabaco. Mas antes de fechar a porta ainda pude ouvir:
Preciso parar de fumar também, se não for o tédio vai ser o cigarro que vai me matar.

Amor: Filosofia ou Suicídio?

23/04/2007

Vai, a vida não te merece.
Pois já te acompanha nas noites a vagar,
O tédio, amigo célebre.

Tão absurdo seria festejar
O morrer não tão calmo da beleza estéril
No fim da noite, no bar.

Aquele frio ibérico
Que dá quando se está só
Como a navalha ou o mistério.

Aquele fino pó
Que permeia a luz
Aquela nota em sol ou dó.

Já não faz sentido o que te conduz
Ou te conduzia
Porque neste fim não há luz.

E ao mesmo tempo, a vida
Bandida e sagaz
Te espreita na saída.

O Abismo da Tristeza

Hoje não me sinto triste nem melancólica, sinto-me apenas vazia de qualquer sentimento depressivo ou alegre. Nada, neste momento transformaria essa sensação em algo explicável. Seja como for sinto às vezes vontade de chorar, como se chorar abrisse um canal estancado no meu peito, se me aquieto e ouço os meus órgãos pulsarem vem junta essa vontade de me desabar para um centro como água que entra por um ralo e no momento seguinte volta. Esse movimento de expiração e inspiração que me toma quando paro, mas não penso, apenas paro para sentir tudo isso que não estou sentindo.

Ontem desabei, mas não soube porquê. No fundo tenho medo de perceber que de fato sei de tudo, tenho consciência da negritude que está tomando conta do meu interior, a ausência de luz de calor ,de algo que me consuma. Ontem abandonei-me a mim mesma, tornei-me mãe e filha de meu corpo pois não quero outros braços não quero outras explicações, quero somente a inércia, a placidez da água parada em um lago, a imobilidade de uma pequena estátua de jardim.

Não me obrigo a achar explicações para tudo, deve sempre haver uma reflexão sem a necessidade de um fim, de um ponto final. Refletir incessantemente pode levar-me a um estado de beatitude, desenrolar meu ser sobre o universo infinitamente até torna-me um ponto de luz, uma molécula sem começo nem fim. É este o meu objetivo agora, ser compactada afim de que a minha energia se aglomere e então eu possa reviver. Assim me sinto neste momento semente em estado latente, mas sem energia suficiente para florescer, por isso a inércia, por isso desabar-me, por isso apenas refletir, refletir e refletir.

Se houver uma explicação, se houver em algum momento um pouco de sanidade racional onde eu possa finalmente esclarecer-me, este momento não será agora. Pois adormeço por dentro e não estou sonhando.

Ensaio

Ana,

Eu não saberia te dizer qual é a verdadeira confusão que me devasta. Acho que tudo aconteceu naquela festa, quando o dia foi surgindo bem devagar compreendi que não estava mais livre, que nunca na verdade eu fui livre de nenhum destes pensamentos que agora te escrevo.

Quem veio primeiro, o amor ou o desejo? Quando olho nos seus olhos, a única luz que ainda tenho nestes meus dias, eu me perco profundamente nas suas pálpebras, nos seus cílios, nas suas entranhas. O tempo e o espaço se fundiram em uma fina linha e segue em direção ao infinito. Então quando penso no passado, um mar calmo e morno, penso que lá não existia opções, nem caminhos. A tranqüilidade é monocrômica, a tranqüilidade é um vasto verde, ou azul profundo, silencioso.

Na verdade, estou mentindo. Permita-me começar outra vez. Às vezes me perco demasiado dentro da licença poética.


***

Ana, querida Ana.

Por que aquela manhã foi tão diferente das outras? Eu sei, não deveria jamais começar uma frase com uma pergunta dessas. Mas ela se faz necessária para que eu possa continuar e para que você possa compreender todos os outros motivos desse meu afastamento da realidade.

Aquele foi o dia em que meu coração se libertou. Engraçado que eu consigo ver agora em seus lábios um pequeno sorriso. Pode rir Ana, a brancura de seus dentes é um conforto pra mim. Pois bem, meu coração não se libertou somente, mas ele quase parou. Te juro de pés juntos, que já chorei todas as lágrimas e que agora minha redação é pura análise.

Ah Ana, se você pudesse tocar com seus dedos o meu interior, ia sentir o espaço vazio que se criou. Um abismo dentro de mim. Estas palavras são muito grandes para explicar a sutileza.


***

Ana,


Há muito não sinto isso dentro de mim, e parece tão bom. Me olho no espelho e só vejo graça em meus gestos. Aquilo que está longe já quase não me pertence, já quase esqueci o que é aquele cheiro humano do sal e dos azeites corpóreos. Me olho no espelho e vejo duas pessoas, vejo um cânon, vejo aventura. Não, não estou amando, estou sentindo.

28/09/2006

Impressões de Madrid II

O que escrever ou como escrever sobre algo que não conhecemos. As ruas, os cheiros, as pessoas.São muito diferentes e muito distantes de meu mundo natural. Envolver-me nestes mundos é como cruzar uma fina película de plástico. Caminho pelas ruas milenares de Madrid, e ao mesmo tempo em que são profundamente cheias de histórias, não me dizem nada, não comparto dessa história. O cinza urbano, este sim me parece muito familiar, o barulho das avenidas, a fuligem da cidade que cresce, a voz dos que caminham na noite.

O sabor da comida cheia de especiarias e azeites desce em meu paladar de um modo peculiar. Sinto falta do tropicalismo de minhas frutas, da fartura do sabor da América. Me parece que a velhice européia impregna até os sabores. A verdura das frutas trazidas de longe, legumes que nem os próprios vendedores sabem o que são: “é fruta chinesa”!, chineses, mais milenares que a própria Madrid, que vivem em seu mundo, mais distante que o meu não fazem questão de se comunicar em espanhol.

Aqui percebo um mundo dentro de outro, por onde passo, ouço línguas que reconheço, outras que me soam como ruídos distantes, de terras que nunca verei. As Europas, Os povos. Em minha rua convivem alegremente colombianos, brasileiros, peruanos, chineses, árabes, indianos, paquistaneses, ingleses e o outros e outros e outros. Quantos são os povos que fazem Madrid? Quantos os sabores que ainda me falta provar?

Venho das Américas, do outro lado do atlântico, na minha terra a gente fala português, ou melhor brasileiro. Lá o meu café tem sabor de café da terra, e as frutas têm um suco doce e melado. Aqui, mesmo que tento, nunca deixarei de comparar, sempre estarei confrontando o novo com o antigo, a colônia com o colonizador. Sou uma estrangeira, mas mesmo assim não sinto aquele medo abissal, a saudade doida. Sinto distância, sinto ela infinita, mas não imortal.

12/09/2006

Impressões de Madrid I

Pela janela do meu quarto, posso ver, de um prédio antigo e um pouco mais baixo que o meu, partes de uma outra sala de jantar. Através da pequena janela arte deco, uma cortina de flores, um par de mãos brincando com uma caneta e um papel. Não existe rosto, só braços, um pedaço de mesa e mistério. A está hora, um cansaço paira sobre a cidade de Madri. Parece que o tempo para, as lojas estão fechadas, o trânsito tranqüilo, o calor escandaloso que permeia todos os ambientes, o gelo se desfaz rápido e a sensação é quase de uma claustrofobia, tamanha a densidade da secura do ar.
Através da outra janela, olho a calçada lateral do prédio menor. Lá fora dois bancos de praça, um senhor pintando umas telas.Sua voz penetra em meu quarto, que será que ele canta? Não consigo decifrar as suas palavras, mas canta alto, com força, olhando para as pessoas que por ele passam. Canta como que para estampar uma certa solidão, uma melancolia que talvez seja mais minha do que dele. Eu o conheço desde ontem, mas acredito que já está nesse banco, nessa mesma esquina, uma eternidade; anos a fio; estações inteiras. Com suas palhetas de cores foscas, pequenos quadros de pinturas abstratas. A sua música me faz companhia. Mas acho que o calor o venceu também, como venceu a toda a cidade. Calou-se, e por ora, só posso observar os seus quadros silenciosos. E tudo o que ouço é ao longe o vagaroso movimento da cidade.

09/09/2006

Bingo


No Bingo

O Bingo do bairro era o melhor da cidade, com letras escritas em néon azul e vermelho: Tropical City, O bingo dos Sonhos. E era dos sonhos mesmo, o prêmio mínimo da linha era 1.000 reais, e a cartela, nossa! Se cantasse bingo antes da 46 bola era batata! 12.000 reais, e depois tranqüilamente podia se ganhar, com paciência, 10.000 a cartela cheia. Ou seja, só louco para perder a oportunidade de sua vida. Foi lá que Dora, Doralice, conheceu Dinda; “ Apelido carinhoso de meus netos, meu nome mesmo é Rosalyce, com ipsulon ” Até os nomes eram parecidos e isso foi só o começo de uma grande amizade. Todas as tardes, Dora e Rosalyce se encontravam lá pelas 3, tomavam um café com conhaque e partiam para o bingo. Lá, entre uma partida e outra trocavam confidências sobre família, eventuais trabalhos, dicas sobre a casa e até, quem diria, coisas do coração. Num desses dias de bingo, Rosalyce ganhou um segundo bingo de 500 reais, e um pouco desapontada fez uma confissão para Dora, “Ai, Dora, ando tão cansada menina...” “ Cansada de quê?” perguntava Doralice, “ De tudo, já não tenho mais idade para cuidar de netos e no fundo, queria era mesmo contratar alguém que pudesse me ajudar...nessas coisas da casa, arrumar meu cabelo, me fazer a sopa de legumes, que Deus sabe onde eu coloquei a receita, aliás, só Deus pra saber metade das coisas que eu ando esquecendo”. Doralice então abriu um sorriso, o mais simpático que pode e como quem se sente a última samaritana disse, baixo, no ouvido de Rosalyce, “ Olha,não te falei isso antes, mas te falo agora, Rosalyce, eu, euzinha aqui, era enfermeira nos meus tempos de menina, claro que hoje não sou tão mais nova que você, mas se quiser adoraria ser sua acompanhante, afinal, somos amigas a tanto tempo, e eu te estimo tanto que...” Parou por um momento, alguém lá no fundo tinha cantado bingo, Dora olhou em volta, pois fazia um silêncio secular e disse: “ Eu posso cuidar de você Rosalyce. A gente faz um bom trato. Que que você acha?” Rosalyce quase chorou de tanta emoção, quanta bondade meu deus, quanta generosidade...Pediu uma água pro garçom e um pouco de sal. “ Ai Dora, que seria de mim sem você”.

Uma Semana Depois

Em poucos dias Doralice já estava íntima da casa de Rosalyce, esta já havia dado as cópias de todas as chaves, incluso a do armário de guloseimas no fundo da cozinha. Doralice fazia seus afazeres normais na casa, o café da manhã, um pouco de arroz com frango no almoço. Às três, as duas partiam para o bingo, onde ficavam até a noite, quando voltavam para a casa de Rosalyce, Dora a preparava a sopa de legumes, que Rosalyce já havia confessado que era melhor que a receita que ela tinha perdido anos atrás.

***
A casa de Rosalyce era uma dessas casas antigas em um dos pontos mais altos e mais centrais do bairro, uma casa que ela tinha herdado do marido quando o pobrezinho faleceu, consta que foi atropelamento, “ Mas eu não tiro da minha cabeça, Dora, que o Joca morreu mesmo foi de mal olhado. Alguém fez que fez, que meu marido morreu, assim, sem mais nem menos.” Dora, no fundo, gostava de Rosalyce, eram boas companheiras de bingo, as conversas sempre duravam horas, infelizmente, e isso realmente pesou na sua decisão: Rosalyce não a pagava muito, o trato tinha sido justo: Um salário e três partidas de bingo ao mês. Rosalyce não podia pagar muito mais que isso, além de ser aposentada, pagava para Dora com um dinheiro que havia guardado por anos, tanto do bingo como o que seu filho mandava todos os meses para ela, para ser usado em um caso de emergência, como este.

A Decisão

Um dia Dora chegou muito mais cedo que o normal na casa de Rosalyce, ao longe ela podia ver que Rosalyce estava distraída brincando com seus netos no jardim. Silenciosamente, foi até o quarto e, com a chave reserva que tinha feito abriu o armário onde Rosalyce guardava suas economias. Muito surpresa ficou Doralice quando, ao abrir o armário, nada encontrou a não ser uma caixa com uma coleção de broches art-deco. Um mau humor tomou conta de Dora, que por todo esse dia mal conversou com Rosalyce. “ Nossa, Dora, que que aconteceu com você hoje? Salgou o arroz menina, que chega que me dói a garganta.”, a este comentário Doralice respondeu dizendo apenas que estava gripada, e por isso errou na dosagem. “ Rosalyce, que quê você acha da gente ir um pouco mais cedo hoje ao bingo? Ouvi dizer que os prêmios das duas vão ser melhores que o prêmios das três da tarde....”, “ Ai, Dora, não sei.” “ Que não sabe, boba” disse Dora, vai querer perder essa change? Lembra da última vez que fomos, foi uma maravilha. Rosalyce se lembrava da sorte que teve aquele dia no bingo, se arrumou, colocou perfume, entraram no carro e foram ao bingo. A todo o momento Doralice ficou distante , Rosalyce tentava animá-la pagando umas cartelas a mais do que de costume. Mas nada, de repente, Dora se levanta bruscamente, vai ao banheiro e quando volta diz “ Vamos querida, vamos embora, este bingo está uma porcaria hoje.” Rosalyce não querendo estragar mais ainda o humor de Dora, e já prevendo a sua sopa salgada no jantar, não disse nada e se foram.

O Acontecimento.

Chegando em casa Rosalyce foi ver tevê e acabou pegando no sono, e Dora foi fazer a sopa. Ao perceber que Rosalyce já dormia, Dora foi à sala, pegou uma almoçada e pensou “ É hoje que eu mato essa velha!”. Bem devagar foi se aproximando de Rosalyce, que roncava profundamente. Mas, inesperadamente, acorda e dá de cara com Dora e uma almofada perto de sua cara.
“ Mas Dora, que quê se passa aqui? O que está acontecendo?”
“Ora Rosalyce, não se faça de boba, cadê todo aquele dinheiro guardado, cadê?’
“ Mas Dora, por que? Por que?”
“ Chega Rosalyce, boa noite.”
“Não Dora, Não..”

A voz de Rosalyce foi sumindo aos poucos, com força Dora sufocava sua cabeça contra a almofada. Ao perceber que a velha estava morta, juntou tudo o que podia e, facilmente descobriu que a velha, oras essas, tinha guardado o resto do dinheiro em um pote de biscoito. “ Que tola” ria-se Dora. Sem pensar duas vezes, pegou o carro e se mandou pro bingo. Pobre Rosalyce, que morreu sem saber ela que o grande prêmio não era o das duas, mas sim os da sete da noite.

07/09/2006

Solidão é Elementar.

Quem mais entraria por aquela porta? Talvez, mas somente talvez, existisse a possibilidade de ninguém entrar lá. Nunca mais. E um dia a espera se tornaria obsessão, e a obsessão solidão e esta em angústia. Daí ela teria que ligar para todas aquelas amigas com as quais não fala há anos. E teria que falar porque está ligando. Seria muito mais difícil do que simplesmente ficar esperando. A eterna espera, a espera poética, a espera dramática, a espera crua, dolorida. Ainda não sabia qual delas estava sentindo. Só sabia que sabia aquilo. Faltava algo mais e isso causava toda essa problemática acima. Quando finalmente começasse a escutar o tic-tac do relógio de pulso escondido na gaveta de calcinhas, era hora de sair do transe, de largar todas essas idéias de lado. “Morar sozinha é uma merda”.Essa hora crucial que é as três da tarde do sábado, quando tudo para, momento de transição da parte do dia, para a parte da noite. Não queria mais preencher mais essas três horas que faltavam para o anoitecer com coisas úteis. “Terei que esperar, esperar, esperar”.Talvez por que a sua mudança tenha sido tão repentina, não havia passado em sua cabeça que existiria o momento da solidão, quando os móveis, o carpete, a lâmpada começam a tomar conta do espaço de um modo particular, como se esses objetos não fizessem parte somente da estrutura da casa, mas de si. Eles, mais que ela, pertenciam àquele mundo. Levantou-se, ligou o rádio, ensaiou olhar para a cozinha e ver se lhe apetecia lavar os pratos. Não, aquilo não dava tesão nela, para ela, limpar a casa para preencher o tempo era coisa de Madalena, e ela, obviamente, não cabia àquele posto. Olhou para porta, pelo olho-mágico podia ver a vizinha entrando no apartamento da frente com as compras da semana, e seus três filhos carregando, cada uma sacolinha: maçãs da Mônica, suquinhos de soja, balinhas de hortelã. “ Será que seu tivesse filhos ia ser melhor? Me sentiria menos só, menos angustiada?” , “ Talvez fosse pior, mãe solteira, esperando que algum se compadecesse da minha situação e falasse: cuidarei de sua cria, como se fosse minha, e nos mudaríamos para uma fazenda no interior da França ou da Espanha e cultivaríamos laranjas.”, “Que idiotice!!!!”. Ainda eram três e meia e parecia que tantas coisas já haviam acontecido. O pensando dela não parava, mas não queria buscar algo para fazer, queria que esse algo a encontrasse. Por isso a espera, por isso a música no rádio. A vontade de fazer algo na verdade não existia muito, existia sim uma inquietação interior, uma mistura de café com leite ou chá. Não queriam que ligassem para ela propondo a balada da noite, queria na verdade estar daquele jeito, naquele instante. Aquela espera era somente o nada. E o nada também era bom, pensava ela. O apartamento não estava todo mobiliado ainda, tanto por fazer! Uma poeira suave cobria todo o chão, nele ela escreveu seu nome, sorriu e se deitou no sofá. Acordou umas horas depois. “Nossa! Já são quase sete!”. O frescor da noite entrava pela sua janela, preguiçosa deixou que o silêncio mais profundo ainda penetrasse seus ouvidos. Pegou o jornal e leu a programação da noite da tv. Aquele filme que ela tanto queria ver ia passar, as oito horas. Tomou um banho, comeu um misto quente, se jogou na cama. Agora já era noite, agora não tinha mais que esperar por ela, e nem por nada, não tinha mais transição, somente noite. O telefone toca uma vez, mas ela não atende. Não se sente mais só, está satisfeita por enfim, ter o seu próprio apartamento. E estando sozinha, afinal, não estava só. Estava ela, ali. Ela mesma. Pensou : Solidão enfim, é elementar.

18/07/2006

Maria Ângela

Maria Ângela brincava com o maço de cigarros vazio, com as pontas dos dedos tocava o resto de tabaco que ficou sobre a mesa, e logo depois levava ao nariz para sentir mais uma vez aquele cheiro meio adocicado do fumo, depois colocou na ponta da língua, e o gosto amargo do amoníaco se espalhou pela sua boca rosa e úmida. Levantou-se, pegou o cinzeiro, cruzou a imensidão branca e fria da cozinha da casa de seus pais, acompanhava com os olhos o ladrilho pintado de azul marinho no chão, percorreu o caminho com a mesma leveza e obstinação que um pagador de promessas vai em busca de sua fé. “Até que não foi tão difícil”, pensou com ela. Um restinho da cinza tinha caído no meio de seus dedos dos pés. Achou engraçado e até um tanto sexy aquela sensação sutil do toque das cinzas com a sua pele. Levemente riu para si, virou-se e saiu para a sala.

Ainda era cedo quando Maria Ângela saiu de casa para ir trabalhar aquele dia, o sol parecia estar sorrindo para ela, um dia diferente de fato. Sentia-se mais leve do que nunca, havia tirado, finalmente, um peso de suas costas, uma obrigação. “Quantas são as chances na vida que temos para nos desapegar de tudo aquilo que nos incomoda em algum nível?” Afinal, aquilo também era um ato de desapego, uma chance de provar a si mesma que poderia manejar o curso de sua vida e suas vontades. Pegou um chiclete de menta na bolsa enquanto esperava o ônibus no ponto, mastigava nervosamente aquele pedaço de goma, tentando não somente aproveitar aquele momento, mas, como diriam seus pais: “Tirar a beleza daquilo que nos rodeia”. “Um chiclete de goma não me rodeia... Mas me preenche, me ocupa o tempo.” Tirou mais um chiclete da bolsa, agora de morango e colocou na boca, junto com o outro, criando um volume tutti-frutti, a cada mastigada, uma bola.

Ainda eram 9:30 da manhã, e a sensação de liberdade, parecia que começava a se esvir a cada segundo dentro dela. “ Não é possível, não é possível!!!”, pensamentos obsessivos começavam a cruzar a sua cabeça, um certo mau-humor tomou conta de dela. Tudo o que Maria Ângela queria agora era esquecer da sua escolha, ao mesmo tempo em que desejos compulsivos vinham como ondas dentro dela. Primeiro foi um cafezinho, depois um biscoitinho e mais um chiclete. Já começava a se arrepender do que tinha feito, achou que seria mais fácil, mas, na verdade, a dor e o sofrimento, a sensação de ausência dentro dela eram quase insuportáveis. Sentou na frente do computador e começou a checar seus e-mails, “assim eu me distraio, tiro essa nuvem de mim, esperei tanto pelo momento certo e agora assim, me parece tudo tão errado”. Estava concluindo o pensamento quando Pedro, seu ideal de ser humano encostou-se na sua mesa, bebia nervosamente com pequenos goles uma garrafinha de chá verde. Vegetariano, yogue, ex-drogado, um quase celibato. Já havia passado por tudo e ainda assim, buscava sempre aperfeiçoar “suas técnicas de ascensão espiritual”.

“E ai, Como foi?”.

“Ainda não sei, to me sentindo meio estranha agora, mas acho que é normal, né?”.

“Acho que sim... Seus pais já sabem?”.

“Não, muito cedo pra contar pra eles. E seu eu me arrepender e tudo voltar a ser como antes? A frustração vai ser maior”.

Pedro parecia não ouvindo Maria Ângela, que buscava nesse momento, um ponto de apoio, um ombro amigo. Pedro olhou para ela como se cruzasse sua carne e buscasse um ponto lá ao longe:

“Fica fria, e olha, fala pra sua mãe que ainda está de pé aquele retiro no domingo! Não esquece, ta?”.

Uma golfada de ódio tomou conta dela, ele que estava ali, todo iluminado, com sua garrafinha de chá verde, esnobou todo o seu sentimento. Com a mão direita apertou com força a lateral da sua saia branca. Uma lágrima quase rolou de seus olhos. “Pedro, Pedro, Pedrinho...” Com ódio mandou ele para o inferno mentalmente. Mascou mais um chiclete, era hora do almoço e ainda não tinha fome. Olhou pela janela do escritório, precisava fazer algo contra aquilo tudo: mais um café, mais um biscoitinho. Maria Ângela já não acreditava mais em si mesma, estava no limite da sua razão, pediu a todos os santos que fosse forte o suficiente para superar. Mais um chiclete. A azia começou a queimar o seu estômago vazio: “Não vou agüentar”.Suas mãos suaram frias. Procurou dispersar o pensamento fazendo uma lista com tudo o que precisava fazer naquele dia, longo dia. Ensaiou: “ Pedrinho... Quer fazer uma caridade com sua amiga? Heim? Vamos tomar um chopinho hoje a noite? To precisando tanto desabafar...”. Pedro olhou com piedade para a amiga, fez uma cara de monge e falou: “ Mari, quantas vezes preciso te falar que está semana é a minha semana do não, portanto, não tomarei chopinho...Sorry.”.

Isso já era demais para ela! A única pessoa com quem poderia conversar, lhe virou a cara. Saiu correndo do escritório, lágrimas grossas, agora, corriam em seu rosto. Sentia de tudo: dor, ódio, descontentamento, medo. Não tinha para onde ir, uma força a guiava até a banca de jornal. “Me vê um maço de lucky strike, por favor, normal.” Tremia, nunca imaginou que aquela manhã seria uma das manhãs mais longas de sua vida. Sentia-se entre a vida e a morte. Pagou o maço, sentou ali mesmo, na beira da calçada. Uma poça de água molhou levemente a barra de sua saia, nada mais a importava, agora era só desespero. A primeira tragada a deixou tonta, depois, a fumaça entrava e saia de seus pulmões como cócegas na barriga : “ Foda-se o Pedrinho!”, disse com um sorriso sarcástico, ascendeu mais um cigarro e procurou esquecer aquela decisão inviável.

16/05/2006

++ O Dia de Alberto++

A MANHÃ

Dalva acordou bem cedo este dia, foi ao banheiro, lavou o rosto e voltou para o quarto para acordar o marido “Alberto, levanta que é hoje!”. Alberto levantou-se, olhou para o relógio e satisfeito, sorrindo disse Maravilha, já são nove horas! Temos que acordar as crianças.” E as crianças foram acordadas,ligaram para a escola e confirmaram o que já sabiam: Não iam ter aula aquele dia. Alberto tampouco foi trabalhar, Dalva cancelou o cabeleireiro; impossível sair aquele dia pelas ruas de São Paulo. Todos sentaram na frente da T.V, a tragédia fora anunciada no noticiário da manhã pelo jornalista em tom grave: “Cidade sitiada! Tomaram conta das ruas o comando PCC, tragédia total, muitos mortos e feridos, permaneçam em casa...” etc etc etc. Alberto franze a testa, segura a pequena mão suada de Dalva, esta olhava pela janela em um misto de contemplação e medo.” Será que eles vão invadir a nossa casa? Eu escondi todas as minhas jóias em baixo daquele móvel antigo” “Deixa de bobagem, mulher” diz Alberto. Mas no fundo ele sentia que algo poderia acontecer. “Estamos vivendo uma guerra civil, não temos tempo para pensar em jóias” diz quase sussurrante. Um sentimento de obrigação civil nasce dentro dele, Alberto vai para a garagem, pega algumas correntes e cadeados “Crianças, saiam do jardim!” “Mas papai, não temos aula hoje, a gente combinou de jogar war com o Fredinho”, “ De jeito nenhum!” diz o pai, protetor e emblemático. “Estamos em Guerra! Vão para dentro e liguem o rádio!”. Alberto coloca os cadeados e as correntes em todas as portas que acredita serem mais fáceis de arrombar. “Se aqueles danados chegarem aqui...” range os dentes, com pensamentos terríveis dentro de sua cabeça.

O DIA ANTERIOR

Essas eram as noticias: tinham acabado de bombardear Bagdá mais uma vez, e uma lista fresquinha de prisioneiros de Guantánamo havia sido liberada pelos EUA quando Alberto recebeu o aviso de sair do trabalho mais cedo, “O bicho vai pegar hoje”.Disse o supervisor. Enquanto o mundo estava em chamas Alberto só pensava em ir para casa, jantar com a mulher e os filhos, todo mundo tinha um mau dia na vida. Mas o que ele não esperava era que este dia tinha, finalmente, chegado para ele. Eufórico, ao entrar no carro ligou para Dalva. “Pegue as crianças no inglês, Dalva! Parece que hoje vai ter tiro pro alto! Metralharam tudo”, ao que Dalva pode entender, pois estava com o secador ligado, respondeu prontamente “Mas ainda são quatro e meia, Alberto, que maluquice é essa?”. Alberto faz silêncio na linha, olhou para o horizonte, e tudo o que via era carros e mais carros, com motoristas ao celular. “Dalva, faça o que estou falando”. Havia então chegado o seu dia, concluiu, o dia em que a guerra o cercou, comboios da policia passavam ao seu lado com armas apontadas para todos os lados. Ele sabia que corria risco de vida andando pelas ruas, afinal, já haviam explodido uma escolinha na zona leste da cidade. Fecharam o comércio e os bancos, não teve tempo nem de passar na padaria pra pegar uma pipoca, afinal, a vigília ia começar cedo naquele dia. “É a guerra, é a guerra!” Repetia para si mesmo enquanto tentava chegar em casa. Dalva abriu o portão e se jogou nos braços de Alberto, não havia comoção maior do que a daquele casal, ligados pelo medo e pela iminência da morte. “ Eu ouvi no rádio, Alberto, deram o toque de recolher, estou com tanto medo..” Esta frase, Dalva ouvira em um filme de ação e jamais pensou em repeti-la, ao vivo. Abraçam-se e olharam para o céu. Aquele pôr -do-sol de outono estava mais sinistro do que nunca.

DESFECHO

Trancados dentro de casa o silêncio fazia-se maior, não havia mais pessoas nas ruas, nem uma alma. “Mãe, to com fome...” “Come pipoca meu filho, sua mãe não pode fazer um lanche agora, é a guerra, meu filho, guerra!”. Já eram duas da tarde, e tudo que haviam comido era o café da manhã. “ Em dias como estes temos que pensar em sobreviver e não em comer”, retificou Alberto. Estavam sentados no sofá, a T.V ligada e o rádio ligado. As imagens que viam eram terríveis,mas até agora, nada havia acontecido perto deles. De repente Alberto se assusta, corre para a janela, crê que ouve algo. “ Mulher, rápido, escondam-se!”. Silêncio. Logo em seguida, um miado, “ É só o Zequinha, Beto! Se eles jogarem uma bomba aqui a gente ia ouvir né?”. Alberto não se contenta com a resposta da mulher, Pedrinho, o filho mais novo começava a soltar um gemidinho... “Pai, to com fome e com medo...”. O sentimento bélico tinha tomado conta de todos. Algumas sirenes eram ouvidas ao longe, mas nada, absolutamente nada parecia chegar perto da casa de Alberto. A noite chegou como todas as outras, e a penumbra foi tomando conta da sala, Dalva acende uma vela, mas é censurada por seu marido “ Isso vai chamar a atenção deles”. Mas agora, os meninos aborrecidos foram para o quarto jogar vídeo game, isso deu a chance a Dalva de falar bem francamente com o marido: “ Olha aqui, Alberto, preste bem atenção: Se nenhum tirinho entrar por essa janela, você vai se arrepender! Amargamente!” “ Mas, Dalva meu bem, nunca se sabe..” “ Shhiu! Nem mais um pio, vo na cozinha esquentar uma sopa pros menino.”. Alberto ficou sozinho na sala, no escuro,olhando pela janela a rua deserta lá fora. Talvez, hoje não fosse o dia dele, não era pra morrer, seguir em frente e esperar sempre pelo pior...Um homem prevenido vale por dois. Saiu correndo em disparate até o meio da rua, acendeu uma tocha improvisada com uma camisa velha e o cabo de uma vassoura, que Dalva, quando desse conta ia fiar furiosa. “ Venham seus malditos! Seja lá da onde saírem! Não vou me dar por vencido, jamais!” Espumava pela boca e esbravejava. “ Vocês vão se arrepender...Vão se arrepender...”.