30/01/2009

Insônia

Insônia
É minha sócia
Cedo se assenta na minha sombra
Sinto seu peso cessar
Meus sonhos
Sina de manter-me desperta
Com ela ao meu lado
Fazendo troça do meu ser
Tece teia nos meus olhos
Insones
Nas minhas pálpebras se senta
Sabe que eu não posso detê-la
Insônia
Malvada sina dos nervosos
Amiga da ânsia
Comparsa das estrelas
Quer meus olhos sempre abertos
Mirando o tempo da noite
Sem piscar
Amanheço sem amanhecer
E peço que nesta noite
Ela não venha me acolher.

29/01/2009

resolução cinco:

Só ande com quem não tem amigos.

28/01/2009

De Rafael para Paloma

Arquivo achado no tempo:
19.dez.2004

Ah, ela voa....ela voa e não me engana...
os pássaros em seus ombros são como escombros
Uma janela atravessada...
uma figura resguardada do tempo
Asas estáticas
Mas ELA, ela mesma, vôa!
Branca pomba...brancas pombas
Ratos de asas
Anjos
Morcegos
Caças protetores
Todos eles voam, mas não, jamais como ela
Como ela apenas em casos deliberdade deliberada....extrema
Alada....
as asas poderás ouvir se tocar sua pele
poderas sentir se ouvir sua transpiração
pequenas grandes asas com as quais vôa
e se chama pavôa pelas cores de suas penas
e pelo calor por entre suas pernas
diz que dói amar
Diz que dói o prazer
e o entrega tão sutil e sublime como o toque de fria agulha na pele
Sangue na língua
furo no peito
O Amor matou seu filho, O Eleito
queimamos as cruzes
apagamos as luzes
acendemos as tochas
firmes como rochas
fluindo como água
jamais pediremos trégua
jamais cagaremos regras
pois nunca as engolimos
recebemos do alto o prazer
merecemos do fundo a dor
entregues sublimes ao acaso
mordendo o fruto e tecendo o pecado
com os fios da razão
em nosso avesso corpo, coração
e nada, nada disso jamais será à toa!
Além da fugacidade dos acontecimentos
e da impermanência da existência!!!
O momento é impresso na memória sem tempo do infinito
E posso garantir, olhando para os céus e
rindo-me loucamente diante do abismo
no qual traço meu caminho!
Desde os palácios suntuosos de origens ancestrais
à prepotência simplista de Roma
Seu nome é PALOMA, e garanto....
ELA VÔA!!!!

27/01/2009

A Menina Semente

Algumas coisas na vida vêem assim para ela, se parecem com pequenas estações. Pequenos outonos em amarelo chá, manchando a copa das árvores de seu jardim. E as folhas, ligadas tão suave e docilmente pelos seus caules que um vento leve pode solta-las dos galhos para preguiçosas morrerem na grama.

Estação da mudança interna, renovação para a verdadeira primavera escondida em sementes. Com um de seus dedos molha os lábios com mel e pimenta, deixar escorrer pelo canto do rosto uma lágrima dourada e doce. Olinhos de olivas, fechados contra o sol fraco da tarde. Ela ainda não sabe o que procura. Mas quer intensamente sentir o sabor desta tarde, tão única.

É muito rápida a vida, então respira fundo e segura o ar em seus pulmões aveludados, tarde sabor de avelã. Como parar o tempo? Se pergunta. Tudo podia ser sempre verão, areia fofa numa praia linda e deserta. Quando se dá conta mais um dia se passou, mas não vai chorar dessa vez, não é?

O que sente é a presença esmagadora e divina do mundo contra suas costas, suas pintas rosinhas se contraem e ficam vermelhas, se juntam formando desenhos desordenados na sua pele de leite. Sente-se cada vez mais sufocada com a pressão, seu rosto também se torna rosa, os pensamentos se anuviam e ela enfim cai profundamente por cima das folhas.

Sonha que tomava um chá de sabor intenso, sabor de grama molhada. Ela ria alto e dizia para uma outra pessoa que poderia simplesmente escolher qualquer um daqueles bombons, que tudo bem não saber afinal se iria gostar ou não, o importante era morde-los bem devagar, sugando aos poucos o licor de seu recheio, sorver devagar e deixar que o sabor se alastra pela língua toda, pela garganta. Ela acha graça na arte de se comer bombons.

Quando acorda já é noite, o mistério das estrelas reluz mil anos luz de sua cabeça. Ainda é outono, caminhando pelo pátio consegue ver na contra luz os galhos despidos, a cada passo o barulinho da secura crocante sob seus pés a faz sentir um pouco de medo e tristeza. É triste ser um galho seco, seria triste morrer nua, sem folhas nem flores.

Agora ela já sabe o que quer, na verdade, gostaria de não morrer nunca, como uma árvore milenar. Eternamente dando frutos e sementes e mais árvores. Povoar o mundo com a eternidade vegetal e orgânica. Tronco em riste olhando para o céu, buscando o calor do sol para alimentar a sua seiva, enfiar as suas raízes para o fundo da terra procurando a água fria, ser abrigo e alimento da fauna e dos homens. E poder ficar no seu silencio despretensiosamente vendo as estações passarem ao sabor das eras.

Decide então com as mãos cavar um pequeno buraco, começou enfiando uma só mão na terra fofa e depois a outra, e depois a outra e a outra novamente, sem parar e conforme cava a terra foi ficando mais úmida, mais perfumada e mais escura.

Quando termina já é quase de manhã, percebe que o buraco é grande o suficiente para que caiba seu corpo todo, deita então no leito, por cima de si coloca algumas folhas e alguns galhos, busca com as mãos pedrinhas para cobrir seus olhos, sua boca e seus ouvidos. Ao poucos se cobre com toda a terra até desaparecer da superfície.

Esta tudo bem agora, é tudo tranqüilidade e paz. Finalmente seria como as outras árvores. Ela não sabe, mas na estação seguinte renasceu como um pessegueiro muito macio e doce.

25/01/2009

Vidas Ordinárias VIII

Ou a História de um relacionamento a dois.

Eles se encontram e : Trepas fodas todo os dias o dia todo > Paixão > Sexo animal cinco vezes por semana> amor > casamento > amor três vezes por semana > filmes só de domingo> amor só de quarta > filmes de sexta a domingo> novelas todos os dias> sexo uma vez a cada quinze dias >um cachorro> um gato> três filhos> uma TV nova >uma amante nova > um personal trainer novo > um divórcio e foram viver felizes para sempre.

Fim.

20/01/2009

Vidas Ordinárias VII

Pedrinho é viciado em video game. Nunca namorou e sabe que essas coisas de gente, são muito complicadas. Uma vez, conheceu uma menina no MSN, ficou tão excitado com a idéia de que poderia fornicar na vida real, que seu banho, esta noite, durou mais que o habitual. Sua mãe, coitada, além de se chamar Neida, um nome um tanto incomum, já tentou seu filho com livros sobre ficção, romances, literatura juvenil. Tudo em vão. Pedrinho fica no vídeo game e sua página no Orkut só tem garotos do RPG. Deprimida, a pobre da mãe experimentou de tudo, psicologia, filosofia e até a bíblia, a que Pedrinho, sem piedade no ardor de sua juventude, questionou –obviamente- o seu maior mistério: que Maria, sem nenhuma foda, engravidou do messias
Hoje é apenas uma terça feira e o peso do tédio corre no ar pesado de chuva, eu sei que tudo o que posso fazer é deixar tecer por meios incompreensíveis a história do meu dia, pois não há nada mais enfadonho do que buscar concorrer com a vida agitada dos urbaholics, agitadores de esquinas, pontos de ônibus lotados e tudo que se repete ad nauseum. Inclusive me é mais que amiga a idéia de me mudar para um mundo mais particular, um lugar onde o tempo não chegue e eu possa discorrer sobre todas estas idéias sem me preocupar em preocupar alguém.

Só existe uma possibilidade real, uma nova pessoa deve nascer dos escombros da criação. E romper meu método, me tirando da embriaguez e da sonolência em que me encontro. E será ela quem irá traçar, nas linhas do dia a dia, a tônica da sobrevivência literária, será a célula inteligente do processo quotidiano. Me libertará todas as manhãs saber que a transformação pode ser efetuada a qualquer minuto e quando eu quiser minha persona sairá não só de minha cabeça mas de meu coração e vai trilhar, impetuosamente, os caminhos que o destino lhe impôs, desde já, antes de seu nascimento, sua sina será traçada a ferro e fogo.

04/12/2008

Poema da Separação

Ele vai encontrar alguém melhor que você.
Vai poder dizer que ela é ainda mais nova.
E vai rir da sua cara.
Minha cara, é assim que é.
Você irá encontrá-lo em um bar qualquer.
Tomando cinar com cerveja.
Ele de mãos dadas com a tal gueixa.
Importada da liberdade, centro.
Sem apego.
Cultive o desafeto profundo.
Cuspa na cara da japa,
Que além de mais nova, é mais baixa.
Diga a ele que não perdoa.
A vida é curta e boa.
Suba ela pela augusta sorrindo.
Ligue para o André e o Pedrinho.
Fale que está solteira e danada.
Ponha mini saia e botas.
Lenço no pescoço.
A contra gosto do ex- noivo.
Taca fogo e arrasa.

02/12/2008

Diálogo II

O sol estava se pondo, foi um domingo de chuva e o céu se abria em azul e cinza no horizonte:

“Quando te vejo eu penso no big Bang.”

“ Então você me vê como uma teoria?”

“Talvez, uma teoria reluzente, complexa.”

Ela se virou contra a janela, suas costas eram largas e perfeitas, a luz atravessava o vidro e pousou alaranjada em seus cabelos e em toda a extensão do seu corpo. Ele acariciou a sua pele e pensava nesse instante em algumas rimas perfeitas.

“Queria escrever um poema sobre você, sobre seu corpo.”

“Eu não sabia que você escrevia poemas, achei que não gostasse. Aquele dia, no bar, eu estava recitando no sarau e a sua cara era de tédio.”

O silêncio ficou pesado no quarto. Ele aproximou sua boca dos ouvidos dela.

“Eu tive ciúmes de você naquele momento. Porque você é tão bela e estava lá, recitando para todos. Eu queria naquele dia que você fosse só minha.”

“ Não posso ser só sua. Na prática, essas coisas não funcionam.”

“Por isso que você é um big Bang, não cabe no meu pequeno espaço.”

“Vamos fazer amor de novo, vou sentir a sua falta.”

Essa última frase que ela disse, foi somente para feri-lo, já havia dado muitas chances, em todas, ele saia pela tangente. Então ela jurou que não ia mais se apaixonar.
Enquanto faziam amor, ele só pensava em como ia ser difícil passar as suas tardes só, não pensava nela, não queria pensar que ela existia. Mas ela, sofria porque no fundo queria ficar ao seu lado e sabia que não podia, não era justo, então tudo o que faria era magoá-lo até que a esquecesse. Era a sua vingança.

Ai, ela abriu os olhos, e fitou longamente os olhos dele:

“ Sabe, existem três tipos de coisas: as determinísticas, as probabilísticas e as caóticas. E pra mim, você é uma das coisas determinísticas.”

Ele de repente ficou surpreso com essa resposta dura, descobrira que para ela, ele não passava de uma parte fixa de seu destino, predestinado, previsível.

“Não há surpresas em você e muito menos no nosso futuro, porque eu já sei o que somos, e nós não poderemos ser mais nada além de dois corpos. Era destino que um dia me apaixonasse, mesmo sendo já determinado que você foderia a minha vida.”

Aquilo doeu em seu coração, como cartas de amor suicidas, aquelas palavras afundaram o que restava de sua ternura por ela. Ele pode entender que aquele big bang havia se espalhado não somente pelo seu espaço, mas por todo o espaço sideral imaginável e que de agora em diante, a verdade do sentimento pendia entre eles penosamente, como uma chuva torrencial.

Seu semblante pesou e um acesso de asma tomou conta dele:

“ se você quer saber , eu não te amo mais, nesse instante, você morreu pra mim.”

O sol já havia se posto, e um vento forte e quente tomava conta do quarto, fazendo um assovio pela fresta da janela de madeira. O mormaço de sexo acabou sendo varrido com o vento e a sensação de grandeza transbordou o ambiente. A cama larga, de lençóis brancos ficou pequena para aqueles dois corpos, ela deslizou para fora e seus pés tocaram o chão frio, seu corpo nu se arrepiou e ele pôde mais uma vez, mesmo sem amor, absorver aquela imagem e guardá-la sabe-se lá onde.

Agonia

ANGÚSTIA.O sujeito amoroso, ao sabor de tal ou qual contingência, sente-se tomado pelo medo de um perigo, de um sofrimento, de um abandono, de uma reviravolta—sentimento que ele exprime sob o nome de angústia. (Roland Barthes, fragmentos de um discurso amoroso)

“ No temor clínico de um colapso esconde-se o temor de um colapso já experimentado (primitive agony)...
A respiração forçada, os medos nunca vêem sozinhos, estão sempre acompanhados de demônios. Demônios meninos. Na hora, tudo é desespero. Não se vá! Posto que já vive o pesadelo, da perda da mulher amada.

...há momentos em que um paciente necessita que lhe digam...
Depois disso, não lhe resta nada. Não há consolo no mundo. O que vive é duro, é pedra e areia molhada.! Não importam o que digam, só importa a amada.

...que o colapso que o atemoriza, minando assim sua vida, já aconteceu.” (Winnicott)
Não acreditar é a melhor saída, depois disso só a morte, essa triste amiga, pode sedar o temor da solidão opaca. Quem lhe falar o contrário, entrega-lhe a corda e a espada. Só da verdade não se vive. Ela não o ama, só tem piedade. Deixe então que ele sofra, na loucura, essa cama boa. As mentiras antes experimentadas.

Lu

Um dia ela me disse que Deus estava em todos os lugares, assim como o amor, que para os poetas é o grande Deus que rege o mundo. E enquanto que para os poetas, as palavras devem ser precisas, cada uma delas contendo a porção exata de compreensão, ela possui as suas próprias palavras que sussurra nos ouvidos dos anjos, quando quer falar com Deus.

Quando fala comigo, quando conversamos numa tarde qualquer, as suas palavras são as dos Homens. Uma boca cheia de verbos se abre e fecha, inúmera vezes, enchendo meus ouvidos. Pode-se dizer que existe uma ansiedade na sua fala sem pontos nem vírgulas, e que às vezes, desgovernadas ela ancoram com força e se espedaçam em cacos.Daí ela chora no chuveiro, aliviando sua alma, deixando escorrer pelo ralo uma angustia. A vontade que eu tenho é de dizer que não sofra, que o amor é uma coisa boba, nós poetas sabemos disso.

Outro dia recebi uma carta sua, falando sobre a chuva e sobre as lágrimas de Deus que caíram sobre seus ombros–ou foram sobre os meus?- e que provaram, dentro de tantas dúvidas, a sua presença. Não foi uma metáfora, porque a metáfora é vazia, é uma comparação entre duas coisas que parecem, mas não são. Quando sofremos não é metáfora, é dor física dentro do peito. Será que ela sofre? Será meu Deus?!

Imagino que ela olhou para cima e as lágrimas do céu caíram em suas janelas castanhas. Acho que na hora ela sorriu, deve ter sorrido espertamente. Abriu as mãos e de uma delas caiu uma caneta. Não precisava mais escrever aquele momento, não havia verbos em sua boca suficientes para decifrar o sentido do momento em que o ser humano é. Na plenitude do sentimento, ela me escreve outra carta contando o que aconteceu dentro dela naquele momento.

“Querida amiga, pergunto se a vida pensa em mim. Vocêpensa em mim?”

Eu sempre penso nela, como a vida poderia não pensar? A vida seria menor se não houvesse criado tal ser e se ele não tivesse um dia entrado pela porta da sala, rindo espertamente de tudo em volta, como se a piada já estivesse pronta.E eu acabo acreditando que onde ela está, Deus está. Porque o seu Deus anda sempre por perto, como um caderno de anotações, de inspirações.

E por fim, no meio disso tudo, chegamos sempre à mesma conclusão, entre uma garfada de macarrão e outra, entre uma risada e outra, que o seu Deus e o meu Amor são a mesma pessoa, que eu posso ficar tranqüila e acreditar que na dúvida existe sabedoria, existimos porque duvidamos, certo Lu? Certo, ela diria.

25/11/2008

Vidas Ordinárias VI

Sempre que Ela pensava em ser alguém, um outro alguém vinha, e acabava com essa idéia estúpida da sua cabecinha.

24/11/2008

Faces do Amor

Ana gosta do humor de Paulo, gosta muito do seu jeito leve de ser.

Mas os olhos do Rodrigo, de um fogo tão profundo e abissal - que até assustou-, ela não se esquecerá.

Pedro tem um quê de intelectual, pena que não quer Ana, que quer tudo. Mesmo assim passeiam, dia sim dia não. Sua companhia é uma companhia madura e delicada e às vezes estranha.

Para ela, André é quase perfeito, seu romance a envolve por inteiro, promessas de fim de semana na praia e concertos de jazz aos sábados. Sente que o que há, vem de muito tempo antes.


Rodrigo fala pouco, tem um sorriso meio maroto, e por trás dos óculos Ana sente que ele sempre está olhando para ela. Sua vida é um mistério, quase não conversam. Ana adora.

Paulo marcou sua vida aos poucos de uma forma bonita, como nos contos de amor. Sua arte é o Ser humano e emociona Ana a forma como ele sente a dor do mundo.

Mais uma vez, Pedro vai ligar. Ela sabe que tem que deixar pra lá, essa retórica toda de contestar o coração.

Pois pra ela, a fragilidade de André beira a loucura contaminante da paixão. É tudo sobre o par perfeito, tudo sobre dois.

Mas Rodrigo tem que entender que o que é dela não será compartilhado. E não é uma pena, não é um sinto muito.

É só um apenas.

12/11/2008

Solidão
Solidão
Solidão

Amar é:
Um imenso mar aberto.
Um deserto
Só, se ama.
Sempre em vão.

Solidão
Solidão
Solidão

Ao final escuridão.

Amar é:
Sentir vazão
Do que é meu
Meu
Meu
Meu

Cansei da solidão, mas
Não se ama a dois
Só se ama.

11/11/2008

Paulo

Hoje, e nos últimos dias da minha vida, eu não tenho me levantando. Não tenho me levantado não por nenhuma razão além da compreensão humana, senão pelo único fato de que a vida não está me apetecendo. Não me apetece sair pelas ruas, sociabilizando com qualquer um que me passe pela frente. Me sinto deprimido. Me sinto acuado pela imensidão social da cidade. Me sinto em nervos, e no fundo, sinto também que para isso não existe uma cura exata. Meu último gole de água da garrafa que ficava ao lado de minha cama eu já tomei. E agora, o que me resta, é repousar na escuridão deste quarto e refletir sobre os conflitos sociológicos urbanos mais recentes.

Vejamos.

Por que eu deveria amar a vida? Nunca houve tanta fome neste mundo, tanta miséria como agora, e então porque justamente eu tenho que amar a vida, e fazer dela uma festa? Como posso falar com alguém : Ola, sou Paulo, trabalho na bolsa de valores etc, etc, etc. Como poderia ousar tal façanha enquanto no norte do país pessoas morrem, literalmente, de fome.

A verdade é que eu falhei. Falhei socialmente, falhei emocionalmente, falhei como ser humano. Mas assumo a minha incoerência psíquica; meu desequilíbrio emocional é só um reflexo da imensidão desorganizada do mundo. E por isso acho que a injustiça é regra, e não exceção.

Não posso encarar as ruas, as calçadas, o meu trabalho depois que Rita me deixou. Ela não somente me deixou, como me deixou só. Ela se foi, e sem explicação. Sem razão. Por isso, não acredito na vida, mas também não tenho o direito de reclamar como um bossal. Ela tinha um perfil de mulher gênio e nisso a gente combinava. Antes, claro, bem antes de eu entender tudo, e entender que ela não poderia fazer parte do meu mundo. E que o mundo dela, por demais criativo e reluzente, e cheio de iniciativas iria se chocar, gradativamente com o meu.

Mas isso é outra história. É outra história porque agora, o que quero, é escrever de mim, e sobre o que eu sinto.

Vidas Ordinárias V

Paulo acordou assim, meio injuriado, já não era um dia comum, era seu inferno astral. E todos sabem que, os de Touro, possuem o pior inferno astral de todos os signos. Pior até que peixes. Era maio, um mês de muitas revoluções no passado: A invasão russa em praga, o maio de 68 dos franceses, seu nascimento, as flores de maio, os casamentos em maio, o outono. Quantos anos faria? Trinta e três. Nossa… O tempo passou para Paulo, na verdade, foram muitas coisas que passaram por ele, e agora a vida acena, desde seu nascimento, com um esgar de choro. “Ainda estou vivo, mas sinto que já estou morto”.

Pulou da cama com um sentimento novo, uma saudade de partida se apossou dele. Olhou o quarto ao seu redor como se fosse a última vez que ali entraria. Paulo ainda não sabia. Mas nunca mais ouviria sua coleção de jazz novamente. Não era mentira, veio de dentro uma certeza nunca antes sentida, pôs a mão na cabeça, desejou que Marta estivesse ali e com ela faria amor, um amor meio animal, um amor lá de dentro, e agora que sabe que não há volta, poderá dizer: Eu te amei, Marta. Ela iria embora feliz, como nunca antes.

Tocou o telefone, um fervor na espinha subiu:
“Quem é?” Disse Paulo.
Houve um silêncio rápido e sepulcral.
“É a crise.”
Paulo ficou branco, e continuaram do outro lado da linha:
“Ela chegou.” Desligaram o telefone.

Que coisa horrível! Então era isso que ele estava esperando. Ligou a TV. Realmente, ela tinha chegado, foi tão de repente. Pela tela via uma multidão ocupando a Avenida Paulista. Pesadelo, pensou. Sentiu uma angustia muito grande. Passou em outro canal, em Nova York, as pessoas se digladiavam com dólares numa mão e sacos de comida na outra. Paulo não entendia nada, até ontem era tudo uma calma e, de repente, a crise veio como uma enxurrada. Tentou ligar para os amigos, as linhas estavam todas ocupadas, pela sacada podia ver que o comércio havia fechado suas portas por medo de saques. O céu estava cinza. Era o fim.

Entrou na internet para procurar mais notícias e tudo o que lia era uma história de horror. Não haviam previsto tal crise, não se sabia o que ia acontecer, o futuro era incerto. Paulo não podia acreditar. Ficou deprimido. Logo hoje, o dia em que tudo poderia ter sido diferente, seu calendário estava marcado de caneta azul com a letra de Marta: Faltam 30 dias e meu amor só cresce.
Odiou Marta e seu amor estúpido por coisas que ainda aconteceram. Odiou ser quem era, odiou os bancos, a crise.

Não tinha para onde correr, o mundo estava em crise e não tinha sequer uma esquina onde se abrigar. Pegou sua moto, chovia cântaros, as gotas grossas batiam na frente de seu capacete e molhavam seu corpo, corria a cem por hora em direção a marginal. Não é possível, pensava. Pelo retrovisor da moto um vulto o seguia, era delírio, só podia. É hoje, finalmente. Quando aumentou a velocidade da moto, uma adrenalina forte tomou conta de tudo, fechou os olhos e deixou que a moto o guiasse para seu fim. Em um segundo seria só paz, só noite, só ele e Deus. Pensou antes de morrer: que vida boa levava os peixes, que tudo o que precisavam fazer era, esperar ignorantes da sua própria existência, a comida e a morte. E então, o rio Tiête, faminto engoliu Paulo, abocanhando sua alma aflita para todo sempre.

04/11/2008

vagamundo

Quero estar em muitos lugares agora. Desejo me desprender de meu corpo e poder flutuar entre as fronteiras de meu país, com a mesma facilidade com a qual vagueia meu pensamento. Hoje sinto uma imensa necessidade de não estar mais em São Paulo, como se esta cidade não me pertencesse, pequenas migalhas de pão, ainda fazem parte do pão, mesmo que este não exista mais. Em mim, só existe um resíduo desta cidade, um esgar de seu esgoto, uma pequena migalha dela em mim.

Quando viajo, não me importa o destino, o que importa é distrair o meu olhar em outras paisagens, é poder sentir o perfume de outras ruas – estradas asfaltadas ou de terra úmida- repousar meu corpo numa cama dura de um hotel ou quem sabe de um quarto amigo. O abraço do desconhecido inebria o meu corpo branco, invernal, austral. Sendo assim me apaixono facilmente, sempre fui uma pessoa que cai de amores pelo desconhecido, e nessas situações, poderia me casar com o gato preso por uma cordinha num barraco de madeira, ou me ajuntar com um pescador e seu pesqueiro, viver de amores com uma fazendo de ostras à beira-mar. Eternas luas de mel com outros céus azuis, outras noites estreladas. Amar sempre amando o distante, pois nele repouso minha criatividade, minhas brincadeiras oníricas.

Estando sempre tão longe daqui, posso desejar morrer em terras estrangeiras. Decido, em partes, que meu coração pertence a outro lugar, mas nunca sei a onde, pois todas as cidades me entorpecem, e em todas quero estar e estabelecer uma nova vida, poder acordar todos os dias nos próximos anos e fazer novas amizades, comer novas frutas da região, tomar um banho de mar se no mar eu estiver, ou acampar em alguma montanha que acerca meu novo lar.

São apenas paixões, meu coração começa a bater mais rápido e de súbito determino: aqui é o lugar. Sempre quis viver fora de São Paulo. Acordo no outro dia chorando com a possibilidade que é uma areia movediça que me engole assim que decido pisar fundo, e o véu cai de meus olhos, percebo que na verdade aquilo também foi uma cilada. Aquela outra cidade é toda uma cilada. O que eu faço? Lá pode estar todos os pequenos objetos e flores que nunca vi antes, mas... E o não estiver lá?

O que não estiver lá deverei abdicar: E como não sei abdicar!Pois quando me apaixono caio em transe e não consigo abrir mão para que possa sofrer um tiquinho da dor da imperfeição, me vejo novamente envolta por um sentimento de desafeto e humilhação. Volto para a Casa, a minha, como a criança pronta para tomar uma surra da mãe depois de uma travessura. Fecho os olhos e tento respirar fundo as lembranças que ficaram em minha memória, aperto as mãos e sinto suavemente a textura do mundo novo que deixei para trás. Abro as mãos e é como se toda a vida escorresse dela.

O caminho da volta pode ter muitos sentidos, pode ser um recomeço como poder se o fim. Ontem achei que fosse o fim, achei que seria a ultima vez que voltaria para aquela casa, coloquei uma pedra em meu coração e deixei que ela pesasse. Olhando o horizonte – mais laranja e vermelho do que nunca- pela janela do avião mandei um beijo para o nada, para o ar que respirei, que me alimentou e me oxigenou.

Cedo a um breve sono e ao acordar volto a olhar pela janela, o que encontro é uma pintura moderna, uma via láctea térrea cobrindo toda a extensão do meu olhar. Na escuridão muitas luzes artificiais compunham um cenário futurista, nos espaços das ruas, amontoavam-se faróis de carros, dando a impressão de que aquilo era uma cachoeira de luz, pelo espaço, espalhadas e esfumaçadas, pontos de letreiros azuis e vermelhos manchavam o reinado do escuro e claro.

Achei a imagem bela e não mais me sucumbi ao medo do retorno, a feiúra de São Paulo desapareceu naquele momento e do céu tive uma visão sublime do que poderia ser aquela cidade e porque de algum modo a amo e me apaixono por ela outra vez. Mas um dia verei a feiúra de um céu sem pintura novamente, e então recomeçarei a minha busca. Levarei um par de sapatos e um óculos de sol, para qualquer outro lugar.

16/07/2008

Ponha em si um poema, amor
Deixe a rima levar seus sentimentos
Deixe a cadência sobrepor
O ritmo de seus batimentos.

Faça pouco dos lamentos
Das tormentas do coração
Da dor, do descontento
Escreva uma canção

Sinta como é a sensação
Se você puder descrevê-la
Pois nem tudo é solidão

Nem tudo é uma pena
Deixe, que ainda há lá dentro
Água, açúcar e pimenta.

Vidas Ordinárias IV

Pode ser que seja somente um momento, no coração de Ana, tudo passava em um segundo. Era a primeira vez que se via no espelho, essa imagem real do seu duplo. Estar só é estar consigo mesma. Verdade inquestionável, todas aquelas fotos diziam algo sobre ela. Todas eram ela mesma, uma Ana em cada mundo. Na sua nova casa não haverá retratos nas paredes, como na antiga. E vai pintar de vermelho a estante de livros.

O vermelho que não era dela, sempre gostou de azul, mas agora, agora que o segundo se passou, achou melhor deixar para trás, como as fotos, o que fora. A vida a um pode ser boa, usar o vestido que quiser, tomar seu café e fumar um cigarro. Ler até mais tarde na cama grande. Pensar no que quer ser no futuro. Os minutos da vida correm adiante, sempre em frente segue o seu destino. Tem que acompanhar a lida da vida, senão Ana se perderá, para sempre. Para todo o sempre.


***

Já Paulo, prefere a companhia de amigos, é de amigos que se faz a vida, e são sempre eles que mostram em seus defeitos ou atitudes, um pouco do que somos. A solidão ocupa um espaço muito grande em seu peito, e parece não ter fim nem concerto. Será sempre um homem só, Paulo. Mas é a sua sina, sua busca por um pouco de aconchego vai demorar a chegar, e ele sabe disso. A sua tristeza é compreensível e ele não luta mais contra ela.

Paulo vai continuar onde está, e seu grande plano agora é poder busca algo que acabe com a solidão que não acaba. Precisa ainda arrumar sua casa, e encontrar papéis perdidos há muito tempo, ainda não sabe se irá viajar ou se muda de emprego. Vai continuar colecionando fotos nas paredes brancas da sua casa, vai continuar perfurando, com o prego a tintura gasta. É disso que precisa, a linearidade maçante de seu cotidiano.

***

É isso então. O dia vence as horas, as horas nunca são suficientes. E bem da verdade, as plantas de vaso nunca duram a estação. Tudo passa, tudo se esquece. Se não se esquece agora, a velhice tratará de o fazer. E a vida tratará de mostrar os caminhos tanto árduos, como fáceis. E Ana e Paulo hão de chegar em algum acordo. Talvez Ana, ligue para Paulo. Talvez Paulo, esqueça Ana. Só esperamos que sejam felizes. Para todo o sempre.

13/05/2008

Ode a ti, cebola

Ó de ti, suprema força de todos os amores
Tua alva carne faz cegar os desavisados olhos
Teu sumo ácido faz animar os humores
Dos que querem a força de teu sabor e molho

És temida também por homens outros
Que nada sabem de teus segredos mil
Fechada em manto ora róseo ora roxo
Derrubas a moral até do mais forte e viril

Se dourada já não és mais hostil
Que o amor sem sal, o dia sem açúcar.
A vida sem ti seria pobre e vil

Ainda que para amar-te isso custa
Ceder aos encantos de teu doce-picante
Dentro da boca e de meu restante.