04/04/2008

Vidas Ordinárias III

Jaz aqui o coração de João. Houve um dia, isso muito antes de conhecer Maria, que ele batia e sorria para o mundo. Depois não, pobre João. Maria era boa, boa demais para qualquer um. Até conhecer João, um bobo que apesar de tudo conquistou o seu coração. João até conseguiu por amigos do colégio, enviar-lhe uma carta, cheia de paixão. Maria, pobre menina, foi assolada pelo rapaz, noite e dia, dia e noite. No fundo até gostava; esse João, por mais nada que fosse, tinha um carisma que não tinha os outros caras. Foi atrás dele, respondeu até a uma chamada, deixou recados:

- João, é Maria, vamos à festa da Nina, vai ter música legal e coisa e tal, queria uma companhia. Você topa?

E João, com seu pobre coração na mão, não podia acreditar. Não era verdade, que ela linda entrando devagar no seu carro,vestido rosa, laço de amarrar no cabelo, ia ser naquela noite, o seu par.

E assim foram, Maria, desajeitada sem saber o que falar, e João, suando as mãos, falando sobre a vida, a viajem à Paraty e o quando se afogou no mar. Daí então, rolou um lance, uma coisa difícil de explicar. Maria, na mão de João pegou, olhou nos seus olhos, chegou perto de sua boca, e assim, sem nem explicação, lançou-se de corpo e alma em um beijo profundo, que coisa louca. Que coisa boa era aquele momento. Tudo durou o tempo de um minuto. Muito rápido, não deu nem pra saber no que ia dar. E então, João se atreveu a falar, o que mais queria, coitado se soubesse o que no fundo pensava Maria.

- Eu gosto de você, quero que você seja a minha menina.

Maria sorriu, arrumou o batom dos lábios, olhou pra fora, a festa cheia de gatos, olhou pra João e disse de supetão.

- Vamos entrar?

Nos olhos dela um silêncio, no coração de João um só lamento. Ele viu, mas não quis acreditar, o amor não existia, e em seu lugar só sobrou a Maria, dançando no outro lado do bar. Foi então que João foi pra casa, desapontado, apaixonado e só. Tentou dormir ao som de rock, foi impossível não pensar no sorriso da Maria, então dormiu sonhando que algum dia, ainda poderia conquistar o coração daquela - vadia? – guria. Quando acordou, se sentiu pior, seu coração sangrava e gritava de dor, na sua roupa o perfume dela, não ia agüentar viver daquele jeito. Tomou coragem, sentou no parapeito, olhou para baixo. Quando fechou os olhos, só sentia o ar na queda livre até o chão. Foi assim o seu fim, sem nenhum glamour, sem nada. Morreu sem conhecer o amor, melhor assim, talvez, pois morreu sem conhecer a dor.

01/04/2008

Nossos dias

Ela acha que somente ela sabe o que se passa em sua cabeça. Mas eu sei também, eu consigo ler em suas expressões cada linha de seu pensamento. Disso ela não sabe, não faz idéia que daqui mesmo, agora, eu posso entender o porquê do seu sofrimento, da sua dor, da sua solidão. Queria poder dizê-la, mas ela não acreditaria em mim, não saberia apreciar o fato de que eu compartilho de seu ódio e da sua desilusão. Queria pegar em sua mão, dar-lhe um beijo leve em seus lábios, tocar-lhe a mente, passar as mãos nos seus cachos, fechar os olhos e abri-los s ao acordar com ela. Posso vê-la de costas agora, pele branca que contrasta com sua jaqueta azul. Já te disse que você se parece com uma pintura? Queria dizer-lhe isso. Sabia que suas lágrimas alimentam a minha esperança de um dia poder secar-las nas mangas da minha blusa? Eu sei disso, mais que você saberia da minha existência.

Tanto tempo que passamos lado a lado sem nenhuma palavra. Ontem, seu silêncio se quebrou, mas não pela boca, não pelas mãos nem pelos olhos. Ontem eu ouvia, de longe, o tocar triste de uma música de jazz, não qualquer, mas uma que ela sempre escuta, e é essa música suas palavras mais belas sobre a tristeza infinita que sente. Uma música que subia e descia, sua intensidade ao fundo é de mar calmo, a escova nos pratos da bateria ia ao ritmo de uma esperança suave que poderia nascer dentro dela qualquer momento, e o trompete, levava para as ruas, um pouco da sua respiração sôfrega como seu pequeno nariz que nunca, nunca respirou muito bem.

Eu sei disso também. Que sua existência dura o tempo de uma manhã quente, quando sai à rua e deixa o sol esquentar seu rosto e seu coração. Fecha os olhos, deixa sentir o calor que sempre lhe negam, sempre lhe escondem nos armários de casa, na sala vazia, no escuro do corredor dos quartos. Você se lembra de mim? Quando nos cruzamos a última vez você ia, de botas pretas e saia e lenço no pescoço, ao encontro de uma resposta. Te dou uma dica, eu estava ali, do outro lado da rua, chapéu, óculos escuros, reparou que meus olhos são verdes como os seus? Um dia vou te mostrar também a minha coleção de jazz, e te fazer uma sopa de tomates, pouco sal e muito amor. Não foi isso que você escreveu no seu diário? Menos sal e mais amor. Nem corpo, nem rio agüentam reter as águas, o fluido.

Mas deixa estar, deixe ser só você, quando se tenta tão só, se compreender, não existe peso demasiado nas revelações. Quem que você quer que te ame? Quem que você quer ser? Eu queria que você soubesse, que com você eu trocaria poemas e cartas de amor, mesmo que a sua saudade naquilo que quer não passe. Mesmo sabendo que você quer mais de tudo. Estarei aqui, te olhando sempre, colecionando momentos nossos, mesmo que estes sejam assim só no pensamento.

06/03/2008

Carta Aberta de Perdão

Se eu pudesse antes te pedir perdão de tudo o que aconteceu depois. E mudasse o rumo das coisas - eu queria ser melhor-, e poder te dizer que te amo antes, bem antes das brigas, dos desentendimentos, das picuinhas.
Queria saber no que vai dar todas essas fichas apostadas no nosso amor, e poder te comprar aquele presente tão lindo que eu vi. Queria estar mais bonita pra quando você chegasse, e já não me sentir só sabendo que você vinha. E poder ser perdoada antes daquele primeiro beijo.
Mas meu amor, me entenda, não fui e não serei perfeita, mesmo querendo, eu só sou eu mesma. Nasci de uma mistura de loucura e alegria. Queria antes de ter nascido, ter escolhido melhor a minha sina.
Então deixemos de lado essa história toda, tentar esquecer os meus pecado, as minhas imperfeições. Me convença que o nosso amor vai ser outro. Vamos começar mais uma vez de novo, como começamos tantas outras. E eu já serei - mais de dez vezes- aquela mulher que você tanto quis.

Ventos

Vem da vida aquele vento
vendaval que vem lento
vem sabido vem de dentro
vem do mundo, aventureiro
vem de ti, vem sem medo
vem moinho e vem centeio
vem centelha, vem vencendo
vem tão sóe verdadeiro
vem vivendo, sorrateiro
vem vindo, vem sendo
vem da vida, vida adentro
vendaval que vem do peito
sorrateiro vem de ti
sem medo do moinho
vem vivendo, vem tão só
é verdadeiro, vem de dentro.

alimento d'Alma

O que alimenta a minh'alma
não nutri mais o meu ser.
Um é feito de tristeza
o outro lhe falta tecer


-A luz da vida
que antes vinha
hoje já é sombra-

Os dois se separam
água e óleo no corpo
e fogo que num consome
no outro alastra todo

- Lá no fundo há sementes
como na terra ácida
esperam d'uma morte, asas-

E eu assim dueto
mas sem sonetos, nem canções.
Uma parte é assovio
a outra vela sem pavio.
Ai, quem me dera!
Achar-me feliz neste mundo
de uma vez só completa
as duas partes em uno.

- Mas não me desespero
quem espera sabe:
a vida um dia invade-

Então calma,
a alma cala
enquanto o peito sofre
e choram as duas partes
sem pressa, elas sabem
só o tempo cura.

Astrologia do Eu

Vou ler nos astros o meu futuro, e as estrelas
hão de dizer o que há de mais profundo.
O que navega no meu ser,
o que vem sem rumo.

Vou ler nos astros o meu futuro,
entender o cometa que passou por mim
e abalou o meu escudo,
e manchou o meu cetim.

Vou ler nos astros o meu futuro, quero ver
se o meu coração responde
aos estímulos do outro mundo.

Vou ler nos astros o meu futuro
buscar o signo que rege
o meu nada e o meu tudo.

29/02/2008

Vidas Ordinárias II

Estava tudo preparado para Paulo passar o reveion mais romântico da vida dele com a namorada em Cancún, quando o inesperado aconteceu. Sua querida mãezinha morreu na véspera do dia 30 de dezembro. Paulo, desesperado, tentou arranjar todo o funeral o quanto antes mas, ironias da vida, por ser final de ano, todas as casas funerárias e os serviços prestados estariam indisponíveis até o dia primeiro, ou melhor, dia dois, pois dia ume é Todos os Santos. Ficou resolvido assim, sua mãe ficaria na geladeira estes dias e logo no dia dois seria enterrada. Cancún ficou para trás. No dia do funeral, todos reunidos:

- Meus pêsames.

- Acontece.

- Ela tá com uma carinha, coitada...

- É, resfriada.

-Gripe?

-Não...freezer.

12/02/2008

Vidas Ordinárias I

Só agora que sua vida começou. A sua pequena coleção de miniaturas engraçadas estava completa. O IPVA IPTU e as dívidas do ano passado estavam quitadas. Agora era vida nova, Ana pensou. Tão nova que resolveu fazer um novo corte de cabelo e terminar de vez aquela meia coisa que ela havia começado com um certo alguém. Um equívoco. “dia 1...não, segunda feira, além de tudo, eu começo a ginástica”. Ana ganhou da sua amiga um dvd bárbaro de ginástica com uma super professora chamada tammy. “Se funcionou com ela, vai funcionar comigo”. Pensava ela enquanto comia pipoca e assistia ao vídeo ( pois jamais iria fazer uma ginástica sem antes saber do que se tratava) sentada no sofá, também novo, comprado na Benedito Calixto.

Mas não foi bem assim. As pessoas não podem ser felizes o tempo todo, incluindo ela, que era uma pessoa meio normal meio especial, meio bonita meio feia, meio alegre meio triste, no último ano mais triste que alegre. Não pode ser 100 por cento? Não, não pode, Ana.

Ela ia entrar no chuveiro quando o telefone tocou, pensou em não atender e deixar que a secretária eletrônica se encarregasse disso. Mas estava se sentindo meio só aquela noite e pensou que, quem sabe, não seria alguém com um bom papo?! “Alô, Ana...”. Quando ela ouviu aquela voz, sentiu o suor descer-lhe pelas costas, desligou o telefone imediatamente, precisava fumar e quem sabe beber “ cadê aquele maldito maço de marlboro que esqueceram aqui em casa?Será que ainda tem um finzinho de tequila na garrafa?” Péssima idéia foi ter atendido à aquele telefonema. O telefone tocou de novo, Ana estava muito nervosa, mas resolveu atender:

“Ana...acho que a ligação caiu...”

“Não, a ligação não caiu, fui eu que desliguei, eu achei que não poderia falar com você e, no entanto você ligou de novo, mas a única coisa que eu quero saber é : por que você nunca mais apareceu e quero entender por que me ligou agora, depois de tanto tempo.”

Ah, o amor não correspondido. Ou melhor, foi correspondido e depois abandonado como um lencinho de papel usado. Da mesma forma como ele se apaixonou por Ana e o amor durou por seis meses, um dia ele sumiu. Sumiu de vez, arrasando o coração e a vida de Ana. Arrasando seus pulmões de tanto chorar, arrastando sua alma para um buraco fundo fundo. Para ela, quase não tinha volta, mas este ano era outra coisa....Ia ser outra coisa.

“ Eu queria me desculpar, sou um tolo...Estou aqui aqui em Sampa e queria te encontrar pra tomar um café..”

“Um café???” Ela estava horrorizada pela mesquinhez dele.

“Ana, quero te falar o que aconteceu, te pedir desculpas...te explicar.”

Tudo o que ela queria era aquela metade de seu coração que apodreceu. Sentada no chão com o telefone no ouvido, ela chorava lembrando de tudo de bom que passaram e sofria, como sofria...Havia sido abandonada e agora não tinha forças para dizer não... A voz dele estava tão firme e segura, tão límpida e saudável, Ana sabia que ele não ia voltar pra ela, só iria arrancar mais um naquinho daquilo que sobrava dela.

“Ta, ta bom, eu vou. Em meia hora te encontro no Unibanco.”

Como uma condenada, Ana caminhou até o chuveiro, lavou seus cabelos sem nenhum desejo, passou creme no corpo que passara tanto tempo só. Passou batom e perfume. O que fazer, afinal, não é? O que restava da felicidade que buscava? Todos seus créditos se foram. No carro enquanto dirigia ouvia no rádio uma música triste e seu ano parecia que não iria acabar jamais.

12/12/2007

Vidas Ordinárias IX

João.


Foi no dia 25 de dezembro, morreu com o peru da noite anterior ainda entalado na garganta. A fartura lhe havia sido cara, ou não? Foi num cruzamento, atropelado ainda com o peru no bucho, na manhã seguinte da ceia de natal. Não teve tempo nem de apreciar os restos amanhecidos daquele jantar. Delírios literários. Morreu e ponto. A diferença única daquela morte foi o peru. Que rechonchudo reluzia na mesa, dourado, suculento, indecente de tão grande.

Não era para menos uma morte tão súbita e inesperada. A culpa recaiu sobre a tia que havia insistentemente lhe oferecido mais um prato, um repeteco daquela delicia. Come vai, mais um pedacinho não vai te matar. Mas matou. João está morto e ponto. Foi a gula? Até agora a família se indaga. Se a gula matasse, deveria ter matado antes, bem antes, o tio. Aquele sim merecia morrer tamanha sua gulodice. Sua fome não tinha tamanho. Tinha que ter sempre tudo do bom e do melhor, e bebia e fumava e trepava com a vizinha que todo mundo sabia que dava pro tio. Que era casado, mas sua gula não o deixava parar. Não morreu e está até hoje matando o seu desejo desavergonhado.

Outra possibilidade é que João se suicidara. Morte desejada. O seu presente de natal esse ano tinha sido mais um livro sobre espiritismo, a vida de Allan Kardec, espírito famoso. Não que João fosse espírita, mas achava que, já que as assombrações estão por ai mesmo, melhor saber com quem se está lidando. Pois bem, João pode ter morrido de pena, pena de comer um bicho tão grande e bobo como era o peru. Um bicho que ao se olhar, percebia-se uma alma leviana. E talvez, é apenas uma hipótese, morreu de dó. O danado do bicho não perdoou João e o levou diretamente ao encontro de sua morte. Num cruzamento, logo de manhã, João deu seu último suspiro, lembrando de como foi doce e cruel aquela última ceia. Morreu no delírio da lembrança, mas satisfeito.

28/11/2007

Insônia

Maria passou a noite toda acordada pensando no sol da manhã seguinte. Tinha uma música na cabeça que, neuroticamente, repetia-se: levante as mãos e daí glória a deus... Levante as mãos e daí glória a deus. De repente já era 5:30 da matina, a luz do dia começava a entrar pelas frestas da cortina e agora ela já não podia mais dormir, ouvindo os pássaros, a música incessante na sua cabeça. Levantou-se de um pulo e pensou ela mesma em rezar, poderia rezar qualquer coisa, contanto que a fizesse descansar a mente daquele refrão e poder, pelo menos, cochilar uma hora. Logo já eram sete e meia da manhã, Maria levantou-se, tinha os olhos e os lábios inchados, um peso em suas costas a fazia ficar curvada e sem vontade. Olhou-se no espelho e o que via era um vulto de si mesma. Uma mistura de sono com o desejo de que aquilo passasse por completo. “Não vou agüentar, não vou conseguir.” Tomou uma ducha e enquanto a água caía pelo seu corpo, chorava junto. Um chorinho miúdo, esquecido dentro dela por muito tempo. “Ai que vontade de não ser... De virar água da água e ir pra sempre por esse ralo” Falava em voz alta, depois resmungava qualquer palavra.

Na rua o sol queimava com força seus olhos, Maria sentia sua boca rachando quanto mais andava naquelas calçadas. As pessoas do ponto de ônibus cheiravam a bolo de fubá, o odor do tabaco queimando pairava no ar e de repente ela sentiu um desejo de fumar também. Busca alguém na rua que esteja fumando, lá longe ela vê um daqueles senhores que carregam uma placa no pescoço. Foi até lá “ Moço,o senhor pode me dar um cigarro?” “O fia, só tenho derby, cê fuma?” A simplicidade da oferta daquela pessoa, quase comoveu Maria a ponto de chorar. No pescoço dele tinha uma placa pendurada onde se lia : Seu futuro está em suas mãos. Empréstimos a baixo custo. Ela ascendeu o cigarro, olhou nos olhos tristes daquele velho pobre, pensou que poderia fazer um cheque de duzentos reais e dar pra ele(toma moço, vai comprar uma camisa nova, um livro pra sua filha, um tênis pro seu neto). Por que ela não fez isso então? Por que não doava assim como ele doou seu simples cigarro? Ela já ia dar as costas quando o velho falou pra ela bem assim “ Fia, cê acredita em deus nosso senhor?” “Talvez, não sei bem, acho que sim...Por quê?” “Pega na mão do divino fia, que com ele a gente nunca ta só.” “O que foi que o senhor disse?” “Disse nada não,f ia.” E se virou e foi embora.

Ela teve a certeza de que tinha ouvido aquele senhor pronunciar tais palavras, ou era a insônia, ou ela realmente havia passado por uma experiência religiosa. Quando o procurou com os olhos ele já havia cruzado a avenida e estava descendo por uma rua. Maria teve que sentar, procurou o celular na bolsa, não achou. Ligou a cobrar do orelhão pra sua melhor amiga, a única que poderia acabar de vez com essa hipótese. “Oi Ana, é Maria, escuta, desculpa te ligar, mas eu tenho uma pergunta séria pra te fazer” “ Maria, espero que seja séria mesmo pra ser a cobrar a essa hora da manhã.” Ana não havia deixado sombras de dúvidas que mataria ela ao ouvir sua dúvida. “Ana, preciso saber, você acredita em deus? Digo, pode ser naquela força superior, mas você acredita?” “ Maria, meu amor.” Ana fez um silêncio e quando terminou de pensar, falou “ Deus é coisa de gente apegada, e religião meu amor, é desculpa esfarrapada.!” E desligou o telefone na cara de dela. Neste momento ela realizou que sim, havia solidão no mundo e neste momento, era ela a própria solidão.

O mundo parou a sua volta, o sono tentava entrar pela sua nuca e lutava contra seus olhos. Queria fechá-los, arrancá-los da cara, viver a escuridão eterna daquela noite que ela não dormiu. Sabia que tinha que agüentar até o fim daquele imenso dia insuportável. Tinha que ir trabalhar, sentar no computador, produzir, fazer dinheiro, colaborar com os colegas. “Levante as mãos e daí glória a deus, levante as mãos e daí glória deus...” “Que fazer meu deus?! Meu deus, que deus? Que caralho, cadê o frontal, por favor, moço, um café!” Maria se sentou no boteco e esperou ver se a confusão passava; o frontal pra relaxar, mas o café pra dar uma animada, era como mutilar o cérebro com soda cáustica. Aquelas horas nunca iam passar, ela poderia deixar no bar um bilhete com seu nome e telefone de casa, quem sabe, se morresse pelo menos alguém saberia quem era ela, ligariam pra seus pais. “Pelo menos morreu em paz, fica com deus minha filha”, seriam as palavras do túmulo dela. E morreria só, sozinha. Sem ter dormido o sono que tanto queria, sem ter descansado a sua mente inquieta.

08/11/2007

Meus cabelos crescem
E minhas idéias crescem com eles.
Minhas sobrancelhas crescem
E com elas minhas unhas crescem

Sem parar

Tomam conta do quarto, enrolando-se
A raiz castanha e as unhas vermelhas
Se perdem


No fundo azul


Dos meus lábios quase derramo as palavras
E no tapete se forma uma poça de água
De meus olhos abertos
De minha boca aberta

Água morna

Vem quente lá de dentro do meu peito
Que incha junto com meu desejo
Cresce corpo a dentro e lá fora
Abre-se o céu.

Tamanho de céu

Minhas mãos incham
E já não seguram mais a cabeça
Que ficou pequena demais
Pro tamanho das idéias

Muitas idéias

Saem pelas orelhas vermelhas
Da cor das unhas longas enroladas
Como lava fervente escorrem

E queimam, queimam tudo
De meu corpo sedento.

29/10/2007

Uma resposta

Lá vem.

E o que vem?

Vem que vem, assim:

No encontro de duas almas.

Uma de lá, uma dela.

Ou outra minha, assim:

Nos encontros do mundo.

Corto daqui, e vejo que lá

Também há de tudo isso.

Dos pontos, das vírgulas

Das “gentes”.

Então sim.

Quem bom que sempre tem.

Que sempre vem esse

Tal de alguém

Pra poder por um ponto

No meu outro, daqui.

19/10/2007

Die Gedanken Sind Frei

Os pensamentos são como a água. Podem estar tão parados que vemos refletido neles nosso próprio rosto, passivo; ou estarem tão atormentados que mal se enxerga o fundo. Os pensamentos são como a água, claros, límpidos, ou escuros e amargos. Ou profundos, ou rasos.

Quem pode beber dessas águas sem se afogar? Ou nadar pelas idéias em tormentas, livres ondas gigantes de idéias, tombando, tombando. Quem pode me dizer a onde terminam?

13/10/2007

Era sonho?
Tudo que é sonho é sonho.
E depois disso, só penso:
Não quero acordar para morrer.

E se por acaso não o fosse?
E nem a vida eterna?
E nem amor eu tivera?
Viver amarga e acordada...

Mas pasmem!
Quando os olhos eu fecho
Crio tudo da escuridão.

Viver de sonhos
Viver pra viver
Tudo dentro de mim, ilusão.

10/09/2007

Ventos

Veio de dentro aquele furacão sem dono
Acertou no peito e depois, abrindo para o espaço
Tomou pelos braços e levou com desespero.
Tamanha a força dos ventos projetados
Seria impossível deter tal destruição.
E levou tudo o que havia por perto:
Amor, respeito, alma e coração.

Sobrou uma brisa de desgosto que veio
Varrendo a poeira fina aos poucos
Que sobrou em cima da mobília, no chão
E em todas as coisas do mundo.
Um silêncio profundo se apossou então
De dentro pra fora e de fora pro céu.
Nem o sol podia escondê-lo em suas sombras.

Nem as sombras eram suficiente breu
Perto das escuras esquinas avassaladas.
Dali nem flores mais brotaram, nem nada.
E sobrou somente o chão de terra
E hoje as janelas fechadas choram.

30/08/2007

Diálogo

(Um trago)

Você sabe, já leu aquele texto do Cortazar...Sobre os coelhos? Sobre aquele cara que vomita coelhos e sem nenhuma razão ele passa a amá-los? Ele passa a amá-los porque é aquilo mesmo, uma coisa de dentro pra fora, só sua, pessoal.

Mas ele se mata no fim, quer dizer, eu acho que ele se mata. Foi o que eu entendi.

( Um trago)

É engraçado tudo isso. Uma amiga minha falou que após ela cair da cama, ela teve uma revelação. E essa revelação só poderia acontecer nestas circunstâncias, você ta me entendendo? Não existe revelação que fuja a esta regra, e ela ainda completou: “Aquilo foi místico, tanto quanto o meu desconhecido fim do dia”.

Tanto quanto o meu desconhecido fim do dia. O real deixa de ser real quando a gente vive o passado ou o futuro, que não existem. Você não acha isso estranho? Saber que, depois de agora é tudo ainda uma grande mentira.?

(A fumaça do cigarro envolve o quarto, o olhar pára fixo no teto)

Eu, particularmente, não acredito que exista um futuro. Essa forma desconexa e esquizofrênica que nos faz comprometer-nos com coisas que também desconhecemos. É tão frágil essa linha que une o agora e o que será que, o melhor seria permanecer, nesta posição, eternamente.

Mas daí eu me lembro que ainda não comprei as flores nesta semana. A semana é futuro, virtual, portanto não existe, mas eu tenho que fazê-la existir, senão jamais teria comprado flores na semana passada, e aí não poderia as comprar essa semana.

Mas as flores, assim como o meu fim do dia, morrem, suavemente, semana após semana.

(trago longo)

Eu deveria comprar cristais ao invés de flores. Cristais são bonitos e super baratos. Cristais me lembram chapada diamantina, e essas coisas da natureza que me acalmam. Verde, verde, verde. Azul, flores, formigas.

Eu sei que isso ta parecendo pedantismo, mas diante das circunstâncias, só me resta pensar no horizonte além da minha janela anti-ruídos.

(piscada, tragada, o olhar fixo na janela)

Existem pessoas que não gostam da natureza? Sim? Não? Eu acho que sim, acho que existem pessoas que abominam este contato direto com a fauna e a flora. Só de pensar em tirar o sapato, caminhar a esmo na beira de uma praia as deixam aflitas .

Mas tudo bem. Tudo bem mesmo. Ninguém tem que gostar da natureza, porque nós somos a natureza. De algum modo, caminhar sobre a grama e admirar os pássaros não passam de afirmações redundantes. A gente não se nega, da mesma forma que é impossível eu falar: eu não existo.

E daí? Você ainda ta me ouvindo? Eu to te irritando?

(levanta da cama, abre a janela)

Acho que eu deveria escrever tudo isso que to te falando em algum lugar, seria legal não esquecer todas essas coisas bonitas e sensíveis que estou pensando. Seilá, começar a escrever um livro existencialista que detonaria Sartre e Nietzsche. Mandar pra algum concurso da faculdade de letras, ficar famosa enfim.

Gozar de todo o prazer da vida pública, ser chamada para coquetéis e jantares. Usar um nome artístico como La Femme Trousseau, por exemplo.

Uma coisa bem difícil, assim ninguém vai ter coragem de me perguntar porque cargas d’água eu resolvi ser escritora.

21/06/2007

Para Rafael

Menino
Da onde vêm seus sonhos?
sonha com tudo que pode sonhar.
E se não te bastam as estrelas, o céu
Vai além além.
Na rabiola do cometa, na corrente de ar.
Sempre olhando pra cima
Pro teto da vida, sem esperar
Que talvez um dia cresça.
Seus pés inquietos
Correm de um lugar a outro,
Nunca param ou descansam,
Nem dormem.
Da onde vêm seus sonhos?
Pra onde vão suas palavras?
Sempre atentas e prontas para saltar
Da sua boca aberta aberta.
E seus olhos, menino
Focando tudo que há de perto
De longe, de belo e de feio.
A sua inocência se confunde
Com o seu nome.
Rafael, nome de arcanjo
Mensageiro e curador.
Assim é você:
De asas abertas, indo sempre para o alto.
Mais alto mais alto.
Como um balão
Feito de ar e sonhos.
resolução quatro: alma lama.

Há uma lama dentro de mim.
Na alma, ela chama em chamas.
E na cama, a lama em minh'alma
canta em voz alta os sonhos ao dormir.

13/06/2007

Paixão!

Estou Sofrendo.
O que tenho?
Paixonite Aguda.
Os sintomas, muitos.
As horas sofridas não cabem no relógio.
Só penso no amado em cada tic-tac de hora.

Todas as cartas são para ele!
Até a inspiração esse amor devora.
Os poemas? Só de amor escrevo.
E claro que dentro do peito
o coração palpita desajeitado!
E até da água que bebo
dedico a ele todos os goles dados!

É paixonite do que padeço!
Da onde veio tal virose?
Me pegou de jeito um dia.
E até hoje sinto ela aqui dentro.
Sorrio toda hora, sintomática reação.
Não presto atenção nas palavras
que os outros me falam.
Nem presto atenção no jardim
pois há dentro de mim uma outra rosa!

Ah como estou sofrendo!
E sofro mais ainda quando ele
não está por perto.
Daí sim, calafrios e tremedeiras.
Suspiro no canto sem razão nem por que.
Meus olhos ficam profundos e lânguidos.
E tudo o que desejo é poder estar:
Ao seu lado, dentro dele, respirando
o ar que ele respira, sentindo o amor que
dele expira.

Ah! Não sei se agüento!
Não sei se posso mais este tormento!
Doutor deveria tu curar esse sentimento,
curar de mim essa paixonite aguda.
Pois não como nem penso.
E o que resta de mim é só poesia e açúcar!

05/06/2007

O que é Causal?

Amor Causal: Adj. 2 gén., relativo a causa;
que exprime causa;
s. m.,
razão;
origem;
motivo, proveniência.

Andava tão tristinho e cabisbaixo,
Sem aquele amor, a razão não existia
Sabia de cor, todas as suas cores preferidas.
E ainda assim, o destino foi vigário.

Como foi árdua a conquista!
Com flores, jantares e promessas.
Aquele amor, sofrido deveras,
Merecia ao menos uma jazida!

Foi só por ele que feliz a vida corria
Brilhava o sol de cada manhã azulada
Estampado na pele da querida amada
Tudo era tão feliz, e o amor uma piada.

Mas agora, sozinho na caminhada
O amor sem rumo vagava obsoleto
Onde foi que ele perdeu o bom senso?
Por onde andas a razão almejada?

Já não podia mais com esse medo
De ficar só, sem razão e sem amor
Como alma penada em busca do senhor
Ficou ele no mundo sem o seu desejo.

E agora o pobre vaga a esmo
Olhar perdido no horizonte cinza
Lucidez, aquilo já não mais tinha
Deixou-a morrer, esquecida no tempo.