A criação mais bela jamais deve ser real ou tocada. O estado maior de compreensão da beleza deve somente ser dada através do sublime. A primeira sensação é sempre de inacabado, incompleto, o desejo de sugar sua força e acolhê-la deve-se ao fato dessa ausência tênue, quase aveludada. A causa do desejo primordial de compreensão é de fato não compreendê-la jamais, nem apreendê-la, mas senti-la em todos os seus aspectos. Sentir a força entrando pelos seus ouvidos, boca e narinas, num fluxo constante e rítmico. A cada golfada uma retomada dessa sensação indescritível, vinda pelas costas indo até espinha e alojando-se no cérebro.
Alojando-se no cérebro.
No seu recôndito mais profundo e escuro.
E ali ficar latente, pulsando toda aquela informação.
André você fala umas coisas tão bonitas...
Cala boca que eu to criando.
O que existe de mais simples no ser humano do que a percepção sem engajamento algum? O simples reconhecimento do mundo esconde em si todas as respostas para os mistérios mais profundos. Foi a observação que fez o homem. Foram os olhos dos homens que os dotou de inteligência. Depois disso, depois de olhar a pedra, o céu, as montanhas por dias, anos e milênios, o homem encontrou o sublime, adorou ao sol, dançou em círculos e fez do mundo todo uma arte. Das ciências aplicadas ao futebol, tudo isso devido ao pensar além daquele macaco pré-histórico nas savanas. O mundo só é mundo por dois motivos: através dos olhos, e além dos olhos.
Você é tão linda, assim nua.
O que será do futuro? O que será de toda essa tecnologia e arte que criamos? Superaremos o sublime um dia, e quando isso acontecer vamos cair no esquecimento eterno, só haverá repetição, repetição, repetição. A tinta fresca na tela será só um pretexto para começar a sair do tédio, a linha incerta no papel branco, um martelo solto no chão. Haverá um limite e o fim será incontestável. Ai a terra se aproxima do sol, e tudo se fundi. Adeus...
Você parece uma lua branca, sob essa luz. Eu vou embora;
Pra onde? Como assim? E eu?
Você irá também, pode esperar...
07/04/2006
20/03/2006
Ausência
AUSÊNCIA: todo tipo de episódio que encena a ausência do objeto amado – sejam quais forem sua causa e duração – e tende a transformar essa ausência em provação de abandono
Estou indo embora. E se foi; sem causa direta e sem efeito nenhum de saída, não podia esperar mais nenhum dia, ou nem ao menos poderia esperar que pudessem os dois compreender o que estava se passando. Cansaço? Tédio? Não, tampouco foi a desilusão, quando foi embora deixou um bilhete na geladeira que eles – ironia do destino, compraram juntos.
Ela entrou em casa aquela tarde com as compras feitas do dia: macarrão, tomate, alho, óleo e um porta velas novo, daqueles que se pendura na janela do quarto, não imaginara (sabia que estavam por um fio) um bilhete na geladeira, jamais! Aquela noite jantou sozinha, não chorou, nem tentou procurá-lo no celular; não adiantaria mendigar sua atenção numa situação dessas. Não entraria em desespero por principio, ela que sempre prezou as atitudes austeras sabia que se perdesse o controle seria para sempre.
Relacionamentos modernos são assim, pensou. Foram dois anos juntos, desses dois anos poderia contar nos dedos quantos momento tiveram realmente juntos, não, não pensava que sairia à francesa numa quarta-feira. Tão efêmero, tão volátil, ele nunca realmente prestou atenção em suas atitudes altruístas. Ela nunca se importou em mostrar-lhe isso, e agora janta sozinha na pequena sala de jantar que se tornara imensa perto da solidão que estava sentindo. Não era saudades aquilo, era apenas ausência, de uma voz, de seus resmungos à noite na cama.
Conheceu ele num barzinho da Vila, tomando chope com as amigas, simpatizou, bebeu mais e foi para casa com ele. Em seis meses estavam morando juntos. Ausência, só isso, não tenho medo de ficar sozinha, mas tenho medo da ausência. É como o escuro que na definição é a ausência de luz, nada mais. Relacionamentos modernos são assim, ressalvou.
Mas não durou muito essa postura, quando começou o jornal nacional, ela entendeu que realmente foi abandonada, fora deixada de lado como um objeto que se esquece num banco da praça. Pegou no telefone mais de uma vez, não teve coragem. Deve estar com a outra, pensou, ou deve estar pensando em mim, consolou-se. Na verdade foi apenas mais um fim, como outros que virão em sua vidinha simples. Ele quem sabe pode voltar para sua vida, ela sabe que o amava, e ainda o ama, e por isso ainda dorme, encolhida, no seu lado da cama.
Estou indo embora. E se foi; sem causa direta e sem efeito nenhum de saída, não podia esperar mais nenhum dia, ou nem ao menos poderia esperar que pudessem os dois compreender o que estava se passando. Cansaço? Tédio? Não, tampouco foi a desilusão, quando foi embora deixou um bilhete na geladeira que eles – ironia do destino, compraram juntos.
Ela entrou em casa aquela tarde com as compras feitas do dia: macarrão, tomate, alho, óleo e um porta velas novo, daqueles que se pendura na janela do quarto, não imaginara (sabia que estavam por um fio) um bilhete na geladeira, jamais! Aquela noite jantou sozinha, não chorou, nem tentou procurá-lo no celular; não adiantaria mendigar sua atenção numa situação dessas. Não entraria em desespero por principio, ela que sempre prezou as atitudes austeras sabia que se perdesse o controle seria para sempre.
Relacionamentos modernos são assim, pensou. Foram dois anos juntos, desses dois anos poderia contar nos dedos quantos momento tiveram realmente juntos, não, não pensava que sairia à francesa numa quarta-feira. Tão efêmero, tão volátil, ele nunca realmente prestou atenção em suas atitudes altruístas. Ela nunca se importou em mostrar-lhe isso, e agora janta sozinha na pequena sala de jantar que se tornara imensa perto da solidão que estava sentindo. Não era saudades aquilo, era apenas ausência, de uma voz, de seus resmungos à noite na cama.
Conheceu ele num barzinho da Vila, tomando chope com as amigas, simpatizou, bebeu mais e foi para casa com ele. Em seis meses estavam morando juntos. Ausência, só isso, não tenho medo de ficar sozinha, mas tenho medo da ausência. É como o escuro que na definição é a ausência de luz, nada mais. Relacionamentos modernos são assim, ressalvou.
Mas não durou muito essa postura, quando começou o jornal nacional, ela entendeu que realmente foi abandonada, fora deixada de lado como um objeto que se esquece num banco da praça. Pegou no telefone mais de uma vez, não teve coragem. Deve estar com a outra, pensou, ou deve estar pensando em mim, consolou-se. Na verdade foi apenas mais um fim, como outros que virão em sua vidinha simples. Ele quem sabe pode voltar para sua vida, ela sabe que o amava, e ainda o ama, e por isso ainda dorme, encolhida, no seu lado da cama.
Apelo
Apelo
Tenho somente um coração
Que fica no lado esquerdo do
meu peito
num só lado do meu corpo
o tenho.
Ah se o tivesse batendo
no meio
e acalentasse o outro
lado esquecido.
Tenho somente um coração
Que fica no lado esquerdo do
meu peito
num só lado do meu corpo
o tenho.
Ah se o tivesse batendo
no meio
e acalentasse o outro
lado esquecido.
palindrome
To day, now, awake
I try to remember the dreams I had
But I can’t remember anything.
I remember that before I sleep, I was thinking of you
And before I think, I just laughed, because I though you would come.
Before, beforehand
I was lunching and I thought
What would I do when at home I arrived?
And take the shoes that I didn’t took off
Before the first gulp, was missing salt
Was missing sugar in my bitter mouth
Because before that, I was crying
Crying because I thought
The whole morning agonizing
When I woke up yesterday
I was nobody.
I try to remember the dreams I had
But I can’t remember anything.
I remember that before I sleep, I was thinking of you
And before I think, I just laughed, because I though you would come.
Before, beforehand
I was lunching and I thought
What would I do when at home I arrived?
And take the shoes that I didn’t took off
Before the first gulp, was missing salt
Was missing sugar in my bitter mouth
Because before that, I was crying
Crying because I thought
The whole morning agonizing
When I woke up yesterday
I was nobody.
A última
Quando abri a porta, por debaixo dela havia mais uma carta atravessada no vão. Pela cor do envelope eu soube de imediato que era dela. “André, não existe mais nenhuma extensão entre nós dois. Não existe mais a ponte que tanto nos distanciava. Aquela foi a nossa última dança”... Nunca soube de nenhuma ponte entre nós, nunca me dei conta de tamanha extensão, mesmo quando dormíamos separados na cama, depois de alguma briga, eu não via a extensão; Eu a chamei pra sair e de cara topou; nossa última dança, depois de tantas. Apareceu na porta do prédio dela com aquela meia-calça arrastão, verde, tão moderna. Salto alto preto, o batom vermelho que eu dei pra ela da minha última viajem a Paris, com o qual ela beija todas essas inúteis cartas que me escreve. Os cachos dos seus cabelos, nesta noite, estavam mais bonitos, o que dava a ela uma cara de anjo demoníaco. O que você quer fazer, tomar um drinque? Ah, seilá, que tal sair pra dançar?Queria estrear a minha meia nova... Ela já havia comprado uma nova, senti enfim o distanciamento, aquela coisa de passado quando já não fazemos mais parte da vida do outro. Com a boate cheia, eu sentia o corpo dela toda hora perto do meu, a textura da meia calça, toda vez que minha mão roçava as pernas dela me excitava. E eu só pensava em tê-la, com aqueles cachos sobre seu rosto. Eu ainda via desejo em seus olhos, e no seu modo de dançar toda dada, não pra qualquer um, mas pra mim, ela dançava pra mim aquela noite, sob o som de Depeche Mode, Prince , Rolling Stones. Você tem que aprender a gostar de rock. Ela me dizia isso como se tivesses anos luz de diferença um do outro. E você tem que aprender a falar menos palavrão. A mão dela me pega pela nuca e me convida para o salão, The Cure, aquela música que a gente sempre escutava enquanto transávamos, desta vez ficou só de fundo. Eu só pensava em tirar a meia calça dela, e ela, sentindo que me excitava cada vez mais, fazia que não sabia, e juntava cada vez mais o ventre dela ao meu. Vem pra casa comigo?. André, você sabe....O hálito dela, mesmo que tenha fumado um maço de cigarros, era um hálito doce, macio...Eu agora não posso mais ficar com você.Então porque aceitou sair comigo? Porque você dança bem, e essa será a nossa última dança. Eu não podia acreditar, eu sei que não ficaríamos mais juntos, mas a pré-visão dela, com outro homem... Provavelmente, ela usa a mesma trilha sonora quando vai pra cama com ele, os mesmos motes, as piadinhas. E esses cachos dos seus cabelos, soltos no rosto dela quando dança, fazendo troça mim. Ana, a gente ainda vai se ver? Claro...Claro que sim. E foi assim que ela saiu da minha vida, e que suas cartas começaram a chegar, uma depois da outra, algumas mais alegres, outras já nem tanto. Eu não respondo, e ela continua a mandar, religiosamente, como se eu fosse o seu único cúmplice de tudo o que ela sentia. “A vida me mostrou como bailar, e se algum dia eu te encontrar num bar, você me paga o drinque, e eu te concedo a dança. Saudades, Ana.”
Sala de Espera
Uma sala branca, com sofás nada confortáveis faz com que o silêncio paire de uma forma diferente, angustiante. Esse é o primeiro sentimento que bate: uma angustia fria com cheiro de éter e desinfetante. A principio a espera em uma sala médica nada tem de mais, com enfermeiras passando de lá pra cá a toda hora, soltando sorrisinhos educados e falando baixo pelos cantos: É neste momento que começo a sofrer, o sentimento passa de calmaria a confuso e fico sentada, suando nas mãos esperando sempre pelo pior.
Com o papel de exames nas mãos tenho que preencher um formulário que só serve para me irritar mais: gravidez recente? Não. Aborto? Não. Feridas externas? Não, não e não. Todas essas perguntas apertam meu peito e me lembro da condição humana que é tão pueril. Apesar de ser tudo muito limpo e desinfetado, clínicas e hospitais não deixam de exalar um cheiro medonho de doença e morte; micróbios flutuando no ar, todas as outras pessoas na sala têm a mesma cara de espera e medo, é quase uma tristeza que repuxa da testa até o queixo uma expressão infantil, nem o homem mais forte e competente do mundo sente-se seguro em uma sala de espera.
Srta M...Por favor, me acompanhe. É chegada a hora, eu sigo a enfermeira como um condenado à morte segue o carrasco até a guilhotina. Penso mais uma vez na situação degradante que é ser humano, que é ser vivo com validade, data de expiração. Penso em como uma fortaleza de vitaminas, músculos e ossos perfeitos pode sucumbir-se à força maior da lei da natureza: tudo o que começa um dia acaba. Enquanto tiro a roupa para o exame e ouço descontente as piadinhas das assistentes do médico, percebo que minha pressão vai caindo lentamente, de súbito me ataca uma depressão, minha testa se contraí gravemente, fecho os olhos, respiro fundo e sento para receber segundas ordens.
Srta M ponha os pés assim, isso. Agora se deite, relaxe. Como alguém pode relaxar ou até dormir (creio que os médico esperem de nós até um cochilinho) entre tantos instrumentos metálicos, iodos, ácidos e contrastes. Contraio a musculatura na medida em que a enfermeira pede para relaxar, o médico entra na sala e me faz um aceno como se eu fosse uma estátua, um pedaço de carne com um par de olhos, no caso úmidos e lacrimejantes devido ao nervoso. Por de trás de minha cabeça, ouço barulhinhos de plásticos que se rasgam, soro sendo aplicado em algodão. Fecho os olhos e solto um gemido franco: Vai doer? Claro que não, irei usar uma espátula e depois farei uma raspagenzinha com essa escovinha...- o diminutivo devia ser abolido da linguagem médica, assim como esse ar que eles tem de mentirosos, é claro que vai doer, e é claro que tudo que é inho na verdade é zão.
O pior sentimento que me abate nessas horas é o de impotência, sinto-me como uma criança sem pai nem mãe nessas horas, sendo bulinada por um estranho na rua, sendo invadida por instrumentos frios, texturas que somente posso sentir, mas não consigo ver. Tudo isso dói muito, exames invasivos, biopsias, na cara da enfermeira um tédio sobrenatural, meu olhar só acompanha a mão do médico e em seguida fixa-se em algum ponto no teto também branco. Srta M, agora colocarei um pouquinho de ácido, e você irá sentir uma cólicazinha...Isso...Muito bem, fique quietinha que estamos terminando. O momento final é drástico, começo a chorar compulsivamente, sinto o ardor entre as pernas me queimar a alma, sinto o medo que me assola de estar doente, de estar diferente, de quem sabe morrer até. Associo os piores pensamento à dor.
Quando acaba, sento-me na maca tremendo, tudo tão rápido e interminável, o médico me dá um copo de água, sai da sala sem falar nada, qume me acode é a enfermeira. Tudo bem queridinha? Ta vendo como foi rapidinho? Uhum, me resigno a responder. Ponho minha roupa e saio por onde entrei, lá fora rostos curiosos me olham, sinto-me nua e estuprada por todos eles. Vou embora cabisbaixa, fungando e tudo que há atrás de mim se reduz a uma cólica.
Com o papel de exames nas mãos tenho que preencher um formulário que só serve para me irritar mais: gravidez recente? Não. Aborto? Não. Feridas externas? Não, não e não. Todas essas perguntas apertam meu peito e me lembro da condição humana que é tão pueril. Apesar de ser tudo muito limpo e desinfetado, clínicas e hospitais não deixam de exalar um cheiro medonho de doença e morte; micróbios flutuando no ar, todas as outras pessoas na sala têm a mesma cara de espera e medo, é quase uma tristeza que repuxa da testa até o queixo uma expressão infantil, nem o homem mais forte e competente do mundo sente-se seguro em uma sala de espera.
Srta M...Por favor, me acompanhe. É chegada a hora, eu sigo a enfermeira como um condenado à morte segue o carrasco até a guilhotina. Penso mais uma vez na situação degradante que é ser humano, que é ser vivo com validade, data de expiração. Penso em como uma fortaleza de vitaminas, músculos e ossos perfeitos pode sucumbir-se à força maior da lei da natureza: tudo o que começa um dia acaba. Enquanto tiro a roupa para o exame e ouço descontente as piadinhas das assistentes do médico, percebo que minha pressão vai caindo lentamente, de súbito me ataca uma depressão, minha testa se contraí gravemente, fecho os olhos, respiro fundo e sento para receber segundas ordens.
Srta M ponha os pés assim, isso. Agora se deite, relaxe. Como alguém pode relaxar ou até dormir (creio que os médico esperem de nós até um cochilinho) entre tantos instrumentos metálicos, iodos, ácidos e contrastes. Contraio a musculatura na medida em que a enfermeira pede para relaxar, o médico entra na sala e me faz um aceno como se eu fosse uma estátua, um pedaço de carne com um par de olhos, no caso úmidos e lacrimejantes devido ao nervoso. Por de trás de minha cabeça, ouço barulhinhos de plásticos que se rasgam, soro sendo aplicado em algodão. Fecho os olhos e solto um gemido franco: Vai doer? Claro que não, irei usar uma espátula e depois farei uma raspagenzinha com essa escovinha...- o diminutivo devia ser abolido da linguagem médica, assim como esse ar que eles tem de mentirosos, é claro que vai doer, e é claro que tudo que é inho na verdade é zão.
O pior sentimento que me abate nessas horas é o de impotência, sinto-me como uma criança sem pai nem mãe nessas horas, sendo bulinada por um estranho na rua, sendo invadida por instrumentos frios, texturas que somente posso sentir, mas não consigo ver. Tudo isso dói muito, exames invasivos, biopsias, na cara da enfermeira um tédio sobrenatural, meu olhar só acompanha a mão do médico e em seguida fixa-se em algum ponto no teto também branco. Srta M, agora colocarei um pouquinho de ácido, e você irá sentir uma cólicazinha...Isso...Muito bem, fique quietinha que estamos terminando. O momento final é drástico, começo a chorar compulsivamente, sinto o ardor entre as pernas me queimar a alma, sinto o medo que me assola de estar doente, de estar diferente, de quem sabe morrer até. Associo os piores pensamento à dor.
Quando acaba, sento-me na maca tremendo, tudo tão rápido e interminável, o médico me dá um copo de água, sai da sala sem falar nada, qume me acode é a enfermeira. Tudo bem queridinha? Ta vendo como foi rapidinho? Uhum, me resigno a responder. Ponho minha roupa e saio por onde entrei, lá fora rostos curiosos me olham, sinto-me nua e estuprada por todos eles. Vou embora cabisbaixa, fungando e tudo que há atrás de mim se reduz a uma cólica.
não leio
Não leio mais livros. Não vou mais ao cinema. Não quero saber de exposições aos sábados. Meu último cigarro eu vou fumar daqui a pouco, e então, tudo estará acabado. Retiro-me dessa vida social inerte e vazia. Me entregarei à mais das ineficientes formas de se viver. Vou dormir pouco ou muito, como me convier. Não quero mais atender aos telefonemas, e aquela garrafa de uísque que antes eu bebia com prazer, vou bebê-la em um só trago, em protesto de um homem só, aos nadólogos de Honoré de Balzac que nos obriga a tudo apreciar moderadamente. Um trago, um canapé,uma risada. E assim, infinitamente até o consenso comum de que no fim de um bom papo, não se falou nada, absolutamente nada sobre nada.
Um dia, estava em um bar qualquer (hoje evito falar sobre meu passado social), quando uma rapariga ainda cheirando a leite me estende a mão e me oferece. “A pílula azul ou a vermelha?”, veja bem, não sei até que ponto a minha narrativa é real ou puro devaneio, mas acreditei e quase que sem pensar me entreguei a um suicídio coletivo, pílulas, uísques, orgias, e no fim ser massacrado pelo amor daquela ninfetinha, punhos cortados, sangue, sublime redenção. Olhando nos olhos dela eu disse “Ora garota, não é muito jovem para vender drogas?”. Entenda porque me entreguei. Entenda como sou, eu penso como um perdedor, não me resta saída senão a declarada no parágrafo acima.
A ela restou rir para mim com desdém, e me explicar, como se explica aos velhos aonde se mija, que “ A pílula azul, meu, é...a ilusão, saca? Maia e essas coisas, são as mentiras que vivemos todos os dias. Agora a vermelha, essa é ducaralho, é a pílula da verdade, se você escolher tomar essa,estará escolhendo o caminho certo, da luz e...”, no fim eu já não mais ouvia ela, só me concentrava em duas palavras: verdade e mentira, ilusão e realidade. Sai do bar embriagado e decidido, e de saco cheio de todas essas coisas, mentirinhas e mesquinharias que vivemos. Então resolvi fazer isso, resolvi ser eu mesmo. Me livrar dessa máscara rançosa de falsos bom dias e boa tardes.
Na última vez que sai com uma garota fomos a uma exposição, e eu me vi tentando impressioná-la com palavras intelectulóides copiadas de livros que li, tentei rimar amor com dor da forma mais medíocre. E ela também, uma falsária, abraçando desesperadamente os panfletinhos explicativos da exposição, para poder chegar em casa e vomitar tudo decorado o que aprendeu em sua magnífica tarde. É por essas e outras que me sinto vazio. Olho em volta me autoprovocando um distanciamento e percebo que todos os outros de terno e gravata estão vomitando coisas vazias. Vão chegar em casa e trepar com a mesma mulher a cem anos, e tudo o que eles construíram na vida vai se transformar numa migalha de satisfação.
Não quero mais ouvir os meus cd´s de jazz, os melhores já estão mortos. Sobre o que vamos falar agora? OS diálogos são repetidos ad nauseum , as frases feitas, as piadas nas horas certas. Um trago, um canapé,uma risada. O olhar cintilante do álcool, não permite que as pessoas sejam elas mesmas. As mulheres atrás de seus blush e batons vermelhos, percorrendo os salões da pinacoteca em dia de vernissage. Pisoteando cada pedaço de cultura, cada centímetro da arte ostensivamente com seus saltos alto. Considero tudo isso um desaforo, uma cuspida na minha cara. Não suporto mais conviver no limbo desse mundinho cruel que é o mundo das artes plastificadas, dos intelectuais deprimidos e decadentes em seus sofás de coro recitando Platão, das mulheres gordas de ministros gordos.
Tudo isso e por tudo isso que considero minha vida uma fraude, um erro no caminho do conhecimento. Quero deixar o meu testemunho sobre o tédio que sinto do que as pessoas não consideram tédio. Quando me encontrarem no quarto bêbado e drogado de lexotam, e de tantas outras pílulas vermelhas e azuis. Não se preocupem, não de ocupem de minha merda no lençol. Quero me entregar ao sebo do esquecimento, ignorar todo o mundo que gira lá fora sem a minha estonteante presença. Não quero saber das últimas peças estreadas, nem quero ouvir os gritos distantes de uma ópera qualquer.
Para mim acabou. O mundo já não me pertence. Quero me deteriorar no ócio do esquecimento.
Um dia, estava em um bar qualquer (hoje evito falar sobre meu passado social), quando uma rapariga ainda cheirando a leite me estende a mão e me oferece. “A pílula azul ou a vermelha?”, veja bem, não sei até que ponto a minha narrativa é real ou puro devaneio, mas acreditei e quase que sem pensar me entreguei a um suicídio coletivo, pílulas, uísques, orgias, e no fim ser massacrado pelo amor daquela ninfetinha, punhos cortados, sangue, sublime redenção. Olhando nos olhos dela eu disse “Ora garota, não é muito jovem para vender drogas?”. Entenda porque me entreguei. Entenda como sou, eu penso como um perdedor, não me resta saída senão a declarada no parágrafo acima.
A ela restou rir para mim com desdém, e me explicar, como se explica aos velhos aonde se mija, que “ A pílula azul, meu, é...a ilusão, saca? Maia e essas coisas, são as mentiras que vivemos todos os dias. Agora a vermelha, essa é ducaralho, é a pílula da verdade, se você escolher tomar essa,estará escolhendo o caminho certo, da luz e...”, no fim eu já não mais ouvia ela, só me concentrava em duas palavras: verdade e mentira, ilusão e realidade. Sai do bar embriagado e decidido, e de saco cheio de todas essas coisas, mentirinhas e mesquinharias que vivemos. Então resolvi fazer isso, resolvi ser eu mesmo. Me livrar dessa máscara rançosa de falsos bom dias e boa tardes.
Na última vez que sai com uma garota fomos a uma exposição, e eu me vi tentando impressioná-la com palavras intelectulóides copiadas de livros que li, tentei rimar amor com dor da forma mais medíocre. E ela também, uma falsária, abraçando desesperadamente os panfletinhos explicativos da exposição, para poder chegar em casa e vomitar tudo decorado o que aprendeu em sua magnífica tarde. É por essas e outras que me sinto vazio. Olho em volta me autoprovocando um distanciamento e percebo que todos os outros de terno e gravata estão vomitando coisas vazias. Vão chegar em casa e trepar com a mesma mulher a cem anos, e tudo o que eles construíram na vida vai se transformar numa migalha de satisfação.
Não quero mais ouvir os meus cd´s de jazz, os melhores já estão mortos. Sobre o que vamos falar agora? OS diálogos são repetidos ad nauseum , as frases feitas, as piadas nas horas certas. Um trago, um canapé,uma risada. O olhar cintilante do álcool, não permite que as pessoas sejam elas mesmas. As mulheres atrás de seus blush e batons vermelhos, percorrendo os salões da pinacoteca em dia de vernissage. Pisoteando cada pedaço de cultura, cada centímetro da arte ostensivamente com seus saltos alto. Considero tudo isso um desaforo, uma cuspida na minha cara. Não suporto mais conviver no limbo desse mundinho cruel que é o mundo das artes plastificadas, dos intelectuais deprimidos e decadentes em seus sofás de coro recitando Platão, das mulheres gordas de ministros gordos.
Tudo isso e por tudo isso que considero minha vida uma fraude, um erro no caminho do conhecimento. Quero deixar o meu testemunho sobre o tédio que sinto do que as pessoas não consideram tédio. Quando me encontrarem no quarto bêbado e drogado de lexotam, e de tantas outras pílulas vermelhas e azuis. Não se preocupem, não de ocupem de minha merda no lençol. Quero me entregar ao sebo do esquecimento, ignorar todo o mundo que gira lá fora sem a minha estonteante presença. Não quero saber das últimas peças estreadas, nem quero ouvir os gritos distantes de uma ópera qualquer.
Para mim acabou. O mundo já não me pertence. Quero me deteriorar no ócio do esquecimento.
10/02/2006
Suicídio

Vai. Ta afim?
Ainda não sei...Não pensei bem o que fazer depois de tudo.
Depois do quê? Ainda ontem você queria desistir.
Mas eu desisti. Eu sei que desisti. Não tinha motivos para ser quem sou.
Você tinha motivos para ser quem era, agora, que já não pode mais, desista.
Eu já desisti.
Então pula.
Não quero. Quero ser o que sou, e não o que era.
Mas você, agora, é um perdedor.
Melhor perdedor do que um cretino.
A cretinice pelo menos é um motivo. E você só precisa de um. Pula.
Eu ainda posso ter um motivo para ser quem sou agora, mesmo sendo um perdedor.
Um fraco.
Um inútil.
Pula.
Não! Ainda não. Você não entende? Não entende que, seu eu pular agora, eu acabo com tudo, e daí não me sobrará nem motivo, nem cretinice, e o que vou ganhar? Serei um ganhador, enfim?
Você só será honesto consigo mesmo. Se não pular, vai ser um covarde, e isso só será mais um motivo pra não viver...e o ciclo começa de novo, percebe?
Não.
A vida só te iludiu.
Mas por pouco eu me safo.
É.
Então? O que achas.
Acho que a vida já não te pertence. E a sua razão se foi, e os seus nervos estão à flor da pele.
Me passa o uísque.
Quer um comprimido também?
Quero. Dois.
E agora? Vai se sentir melhor? Vai se deixar ir, com todas as regras do jogo.
Vou.
Então pula.
...
21/09/2005
Bula continuação As manhãs
“Indicado para o estado de depressão psíquica e física,originada de excesso de trabalho mental por problemas de origem emocional como preocupação, ansiedade, irritabilidade, medos, sustos e contrariedades. Nos casos de esgotamento, tristeza, baixa vitalidade e hipersensibilidade aos estímulos sensoriais.”
Foi tudo o que ela pode ler na bula de seu remédio, antes de engolir a primeira drágea verde e vermelha, sentada no sofá deixou a que o frasco escorregasse de suas mãos e permaneceu olhando fixamente a parede cor de verde abacate. Aquilo era uma das coisas que a irritavam todos os dias assim ,desencadeando um processo que por fim a levara a comprar aqueles comprimidos. Sua vida tinha a mesma cor triste daquela parede de textura meio granulada de abacate maduro.
Aos poucos se levantou do sofá e começou a observar as outras mulheres que passavam pela rua, todas elas carregavam uma das indicações da bula dentro de si, sem exceções, pensava ela, mesmo que tentasse ser uma pessoa completamente normal não poderia jamais esquecer de seu fardo, de seus obstáculos com a vida. Considerava-se uma mulher de verdade, completa, sabia muito bem quais eram os seus deveres, mas pouco sabia de suas fraquezas. Ainda de roupão não se lembrava mais do que tinha comido ontem antes de dormir e este pensamento tomou-lhe um tempo enorme, tinha que passar o tempo de alguma forma, começou a preparar um café forte, sentou novamente no sofá e pensou.
Não tinha mais a beleza de algum tempo atrás, quando tudo o que ela mais ansiava estava ainda latente em seu corpo, uma ansiedade quente e úmida. Sorriu para a pilha de roupas que tinha que lavar como se aquilo fosse tudo o que restava de seu breve passado. Não queria lembrar como começou, tampouco da forma como simplesmente acabou; por isso os comprimidos, a reclusão e a espera angustiante de seu efeito.
Coragem e fraqueza eram dois sentimentos que se entrelaçavam dentro dela. Teve a coragem de tirar um filho, de enfrentar sozinha a descida a um pequeno inferno, e a fraqueza foi justamente o seu ópio, a saída mais simples para uma pergunta sem resposta. Ninguém soube, talvez isso tenha facilitado não pensar no futuro, pretender que nada acontecerá no instante seguinte. Ele nunca soube o que aconteceu, nem nunca saberá o que aconteceria. Gostava dele, mas seria inútil estar ao seu lado, seria incapaz de conviver com seu olhar sempre vagueando pelas coisas do mundo; então saiu de uma vez de sua vida, levando consigo o seu único segredo.
Quanto tempo passara e ela nem tinha percebido, quase uma estação inteira. São os remédios, argumentou. Os remédios contra a espera, contra a necessidade da busca e contra todo tipo de sentimento relevante em sua vida.
O telefone toca. Ana já sabia quem era, sempre soube, pois nunca mais atendera a um telefonema...que dia era hoje?
--Alô... Eu sei quem é.
-- Preciso te ver. Quer dizer, preciso falar com você sobre umas coisas que andei pensando, que... enfim, bater um papo.
Num instante passou-se tantas coisas na cabeça de Ana. Pensou em como o amor podia se transformar em ódio, em como pequenas coisas juntas podem se transformar no maior de seus pesadelos: manias, tom de voz, as roupas, sempre as mesmas roupas.
--- Olha, se você não tiver...
--tenho sim, mas fala logo que eu agora to costurando umas calças.
Ela sempre mentia. Nunca gostou de dar satisfações, mínimas que fossem, e também nunca gostou de muita sinceridade, acreditava ser algo muito pedante.
-- Te amo, Ana.
Silêncio.
-- Só isso?
--Não, quero dizer, te amo mesmo, no duro. Te amo mais do que me odeio. Te amo mais que a minha vida, você pra mim Ana, é...
Não esperava que ele fosse tão longe, um vácuo se rompeu dentro dela sugando todo o ambiente ao seu redor, o tempo parou. Foi pega de surpresa: ele sabia. Ela havia esquecido há muito tempo de tudo e mesmo assim como uma sombra ele reapareceu. Tomou mais dois comprimidos.
-- Esse filho é meu não é? Então Ana, agora eu sei...eu sei que posso...
Desligou o telefone imediatamente, fechou os olhos, flashbacks começaram a dar voltas em sua cabeça, os comprimidos finalmente fizeram efeito. Ela se deitou no chão e deixou ser tomava por todos os pensamentos. Simples pensamentos, agora tudo era passado.
Foi tudo o que ela pode ler na bula de seu remédio, antes de engolir a primeira drágea verde e vermelha, sentada no sofá deixou a que o frasco escorregasse de suas mãos e permaneceu olhando fixamente a parede cor de verde abacate. Aquilo era uma das coisas que a irritavam todos os dias assim ,desencadeando um processo que por fim a levara a comprar aqueles comprimidos. Sua vida tinha a mesma cor triste daquela parede de textura meio granulada de abacate maduro.
Aos poucos se levantou do sofá e começou a observar as outras mulheres que passavam pela rua, todas elas carregavam uma das indicações da bula dentro de si, sem exceções, pensava ela, mesmo que tentasse ser uma pessoa completamente normal não poderia jamais esquecer de seu fardo, de seus obstáculos com a vida. Considerava-se uma mulher de verdade, completa, sabia muito bem quais eram os seus deveres, mas pouco sabia de suas fraquezas. Ainda de roupão não se lembrava mais do que tinha comido ontem antes de dormir e este pensamento tomou-lhe um tempo enorme, tinha que passar o tempo de alguma forma, começou a preparar um café forte, sentou novamente no sofá e pensou.
Não tinha mais a beleza de algum tempo atrás, quando tudo o que ela mais ansiava estava ainda latente em seu corpo, uma ansiedade quente e úmida. Sorriu para a pilha de roupas que tinha que lavar como se aquilo fosse tudo o que restava de seu breve passado. Não queria lembrar como começou, tampouco da forma como simplesmente acabou; por isso os comprimidos, a reclusão e a espera angustiante de seu efeito.
Coragem e fraqueza eram dois sentimentos que se entrelaçavam dentro dela. Teve a coragem de tirar um filho, de enfrentar sozinha a descida a um pequeno inferno, e a fraqueza foi justamente o seu ópio, a saída mais simples para uma pergunta sem resposta. Ninguém soube, talvez isso tenha facilitado não pensar no futuro, pretender que nada acontecerá no instante seguinte. Ele nunca soube o que aconteceu, nem nunca saberá o que aconteceria. Gostava dele, mas seria inútil estar ao seu lado, seria incapaz de conviver com seu olhar sempre vagueando pelas coisas do mundo; então saiu de uma vez de sua vida, levando consigo o seu único segredo.
Quanto tempo passara e ela nem tinha percebido, quase uma estação inteira. São os remédios, argumentou. Os remédios contra a espera, contra a necessidade da busca e contra todo tipo de sentimento relevante em sua vida.
O telefone toca. Ana já sabia quem era, sempre soube, pois nunca mais atendera a um telefonema...que dia era hoje?
--Alô... Eu sei quem é.
-- Preciso te ver. Quer dizer, preciso falar com você sobre umas coisas que andei pensando, que... enfim, bater um papo.
Num instante passou-se tantas coisas na cabeça de Ana. Pensou em como o amor podia se transformar em ódio, em como pequenas coisas juntas podem se transformar no maior de seus pesadelos: manias, tom de voz, as roupas, sempre as mesmas roupas.
--- Olha, se você não tiver...
--tenho sim, mas fala logo que eu agora to costurando umas calças.
Ela sempre mentia. Nunca gostou de dar satisfações, mínimas que fossem, e também nunca gostou de muita sinceridade, acreditava ser algo muito pedante.
-- Te amo, Ana.
Silêncio.
-- Só isso?
--Não, quero dizer, te amo mesmo, no duro. Te amo mais do que me odeio. Te amo mais que a minha vida, você pra mim Ana, é...
Não esperava que ele fosse tão longe, um vácuo se rompeu dentro dela sugando todo o ambiente ao seu redor, o tempo parou. Foi pega de surpresa: ele sabia. Ela havia esquecido há muito tempo de tudo e mesmo assim como uma sombra ele reapareceu. Tomou mais dois comprimidos.
-- Esse filho é meu não é? Então Ana, agora eu sei...eu sei que posso...
Desligou o telefone imediatamente, fechou os olhos, flashbacks começaram a dar voltas em sua cabeça, os comprimidos finalmente fizeram efeito. Ela se deitou no chão e deixou ser tomava por todos os pensamentos. Simples pensamentos, agora tudo era passado.
As manhãs
Acordou como se acorda em todas as manhãs: cinza. Leu seu jornal da forma como mais lhe agradava o ler, sentado ao lado da porta de entrada de modo que pudesse abrir todo o jornal e ver a sua configuração, de um anglo bem particular seu. Às vezes a tinta do jornal lhe deixava marcas nas batatas das pernas cruzadas, mas só as percebia quando ia colocar uma calça qualquer do armário. Ele não era nada, só um observador. Não tinha intenção nenhuma de tirar as marcas, somente as cobrir. Saía encardido do suor da noite, não que fossem quentes, mas eram noites de sonhos tremendos, desconfigurados.
Essa noite sonhou com seu pai e sua irmã, ele nunca aparecia nem como primeira nem como terceira pessoa, tentou chamá-los mas foi inútil, eles iam embora por um caminho que não terminava nunca, e ele não teve a coragem de gritar por eles. Não teve vontade. Assim vivia, assim se dava por vivo, sabia que se respirasse e expirasse algumas vezes teria que continuar andando e falando, pois uma coisa sempre leva a outra, e acordar aquele dia e ler o jornal daquele angulo o fez fazer uma pequena curva no tempo. Ao invés de pôr uma regata, colocou uma camiseta levemente manchada por gotas de café, discretamente se olhou no espelho, pela primeira vez em muito tempo teve uma visão de si.
Tomou água, depois uns goles de coca-cola da geladeirinha que ficava no seu quarto. Ficou mais um minuto parado, olhando para um quadrinho que tinha na parede que um amigo, bêbado, desenhara uma vez e o dera, como prova de uma amizade alcoolizada.Alguma coisa se passava na sua cabeça, era uma idéia muito indefinida ainda, tinha medo de ter idéias, gostava somente de lembrar das idéias dos outros e se odiar por nunca ter tido uma, um impulso, um momento de grande histeria. Mas esse momento estava próximo, ele sentia juntamente com o ácido da coca-cola rasgando o estômago ardido da azia.
Mudou de lado na cama, agora estava sentado vendo da janela uma árvore, precisava de espaço, de grandeza. Pegou o telefone:
-- ....Alô? Ana...aqui é...
-- Eu sei quem é.
-- Preciso te ver. Quer dizer, preciso falar com você sobre umas coisas que andei pensando, que... enfim, bater um papo.
Silêncio.
Ana, era como o seu jornal, ela se estendia por toda a sua vida de um angulo estranho, de qualquer lugar que ele estivesse não conseguiria nunca vê-la por inteiro, completa. Tinha medo de pessoas completas.
--- Olha, se você não tiver...
Foi interrompido por uma voz firme, dura, resistente. Ana era a sua resistência, sua única batalha.
-- Tenho sim, mas fala logo, agora não posso sair daqui, to costurando uma calça nova..
Ana sempre mentia.
-- Te amo, Ana.
Silêncio.
-- Só isso?
--Não, quero dizer, te amo mesmo, no duro. Te amo mais do que me odeio. Te amo mais que a minha vida, você pra mim Ana, é...
E parou por ai, sabia que não podia continuar falando, tudo tinha um limite em sua vida e sua força parara por ai.
Ana não falou mais. Ele também não. Um ouvia do outro a respiração, ele olhando pela janela a árvore lá fora, ela sentada no chão chorava baixinho com a mão na barriga. Não podia, não queria falar.
-- Esse filho é meu não é? Então Ana, agora eu sei...eu sei que posso...
A ligação caiu, ela desligara a última ligação que havia entre eles. Dentro dele uma sensação plena de estática, esperou demais pelo momento certo. Dentro dela o vazio de três meses atrás.
Essa noite sonhou com seu pai e sua irmã, ele nunca aparecia nem como primeira nem como terceira pessoa, tentou chamá-los mas foi inútil, eles iam embora por um caminho que não terminava nunca, e ele não teve a coragem de gritar por eles. Não teve vontade. Assim vivia, assim se dava por vivo, sabia que se respirasse e expirasse algumas vezes teria que continuar andando e falando, pois uma coisa sempre leva a outra, e acordar aquele dia e ler o jornal daquele angulo o fez fazer uma pequena curva no tempo. Ao invés de pôr uma regata, colocou uma camiseta levemente manchada por gotas de café, discretamente se olhou no espelho, pela primeira vez em muito tempo teve uma visão de si.
Tomou água, depois uns goles de coca-cola da geladeirinha que ficava no seu quarto. Ficou mais um minuto parado, olhando para um quadrinho que tinha na parede que um amigo, bêbado, desenhara uma vez e o dera, como prova de uma amizade alcoolizada.Alguma coisa se passava na sua cabeça, era uma idéia muito indefinida ainda, tinha medo de ter idéias, gostava somente de lembrar das idéias dos outros e se odiar por nunca ter tido uma, um impulso, um momento de grande histeria. Mas esse momento estava próximo, ele sentia juntamente com o ácido da coca-cola rasgando o estômago ardido da azia.
Mudou de lado na cama, agora estava sentado vendo da janela uma árvore, precisava de espaço, de grandeza. Pegou o telefone:
-- ....Alô? Ana...aqui é...
-- Eu sei quem é.
-- Preciso te ver. Quer dizer, preciso falar com você sobre umas coisas que andei pensando, que... enfim, bater um papo.
Silêncio.
Ana, era como o seu jornal, ela se estendia por toda a sua vida de um angulo estranho, de qualquer lugar que ele estivesse não conseguiria nunca vê-la por inteiro, completa. Tinha medo de pessoas completas.
--- Olha, se você não tiver...
Foi interrompido por uma voz firme, dura, resistente. Ana era a sua resistência, sua única batalha.
-- Tenho sim, mas fala logo, agora não posso sair daqui, to costurando uma calça nova..
Ana sempre mentia.
-- Te amo, Ana.
Silêncio.
-- Só isso?
--Não, quero dizer, te amo mesmo, no duro. Te amo mais do que me odeio. Te amo mais que a minha vida, você pra mim Ana, é...
E parou por ai, sabia que não podia continuar falando, tudo tinha um limite em sua vida e sua força parara por ai.
Ana não falou mais. Ele também não. Um ouvia do outro a respiração, ele olhando pela janela a árvore lá fora, ela sentada no chão chorava baixinho com a mão na barriga. Não podia, não queria falar.
-- Esse filho é meu não é? Então Ana, agora eu sei...eu sei que posso...
A ligação caiu, ela desligara a última ligação que havia entre eles. Dentro dele uma sensação plena de estática, esperou demais pelo momento certo. Dentro dela o vazio de três meses atrás.
Ser é Nada.
Não leio mais livros. Não vou mais ao cinema. Não quero saber de exposições aos sábados. Meu último cigarro eu vou fumar daqui a pouco, e então, tudo estará acabado. Retiro-me dessa vida social inerte e vazia. Me entregarei à mais das ineficientes formas de se viver. Vou dormir pouco ou muito, como me convier. Não quero mais atender aos telefonemas, e aquela garrafa de uísque que antes eu bebia com prazer, vou bebê-la em um só trago, em protesto de um homem só, aos nadólogos de Honoré de Balzac que nos obriga a tudo apreciar moderadamente. Um trago, um canapé,uma risada. E assim, infinitamente até o consenso comum de que no fim de um bom papo, não se falou nada, absolutamente nada sobre nada.
Um dia, estava em um bar qualquer (hoje evito falar sobre meu passado social), quando uma rapariga ainda cheirando a leite me estende a mão e me oferece. “A pílula azul ou a vermelha?”, veja bem, não sei até que ponto a minha narrativa é real ou puro devaneio, mas acreditei e quase que sem pensar me entreguei a um suicídio coletivo, pílulas, uísques, orgias, e no fim ser massacrado pelo amor daquela ninfetinha, punhos cortados, sangue, sublime redenção. Olhando nos olhos dela eu disse “Ora garota, não é muito jovem para vender drogas?”. Entenda porque me entreguei. Entenda como sou, eu penso como um perdedor, não me resta saída senão a declarada no parágrafo acima.
A ela restou rir para mim com desdém, e me explicar, como se explica aos velhos aonde se mija, que “ A pílula azul, meu, é...a ilusão, saca? Maia e essas coisas, são as mentiras que vivemos todos os dias. Agora a vermelha, essa é ducaralho, é a pílula da verdade, se você escolher tomar essa,estará escolhendo o caminho certo, da luz e...”, no fim eu já não mais ouvia ela, só me concentrava em duas palavras: verdade e mentira, ilusão e realidade. Sai do bar embriagado e decidido, e de saco cheio de todas essas coisas, mentirinhas e mesquinharias que vivemos. Então resolvi fazer isso, resolvi ser eu mesmo. Me livrar dessa máscara rançosa de falsos bom dias e boa tardes.
Na última vez que sai com uma garota fomos a uma exposição, e eu me vi tentando impressioná-la com palavras intelectulóides copiadas de livros que li, tentei rimar amor com dor da forma mais medíocre. E ela também, uma falsária, abraçando desesperadamente os panfletinhos explicativos da exposição, para poder chegar em casa e vomitar tudo decorado o que aprendeu em sua magnífica tarde. É por essas e outras que me sinto vazio. Olho em volta me autoprovocando um distanciamento e percebo que todos os outros de terno e gravata estão vomitando coisas vazias. Vão chegar em casa e trepar com a mesma mulher a cem anos, e tudo o que eles construíram na vida vai se transformar numa migalha de satisfação.
Não quero mais ouvir os meus cd´s de jazz, os melhores já estão mortos. Sobre o que vamos falar agora? OS diálogos são repetidos ad nauseum , as frases feitas, as piadas nas horas certas. Um trago, um canapé,uma risada. O olhar cintilante do álcool, não permite que as pessoas sejam elas mesmas. As mulheres atrás de seus blush e batons vermelhos, percorrendo os salões da pinacoteca em dia de vernissage. Pisoteando cada pedaço de cultura, cada centímetro da arte ostensivamente com seus saltos alto. Considero tudo isso um desaforo, uma cuspida na minha cara. Não suporto mais conviver no limbo desse mundinho cruel que é o mundo das artes plastificadas, dos intelectuais deprimidos e decadentes em seus sofás de coro recitando Platão, das mulheres gordas de ministros gordos.
Tudo isso e por tudo isso que considero minha vida uma fraude, um erro no caminho do conhecimento. Quero deixar o meu testemunho sobre o tédio que sinto do que as pessoas não consideram tédio. Quando me encontrarem no quarto bêbado e drogado de lexotam, e de tantas outras pílulas vermelhas e azuis. Não se preocupem, não de ocupem de minha merda no lençol. Quero me entregar ao sebo do esquecimento, ignorar todo o mundo que gira lá fora sem a minha estonteante presença. Não quero saber das últimas peças estreadas, nem quero ouvir os gritos distantes de uma ópera qualquer.
Para mim acabou. O mundo já não me pertence. Quero me deteriorar no ócio do esquecimento.
Um dia, estava em um bar qualquer (hoje evito falar sobre meu passado social), quando uma rapariga ainda cheirando a leite me estende a mão e me oferece. “A pílula azul ou a vermelha?”, veja bem, não sei até que ponto a minha narrativa é real ou puro devaneio, mas acreditei e quase que sem pensar me entreguei a um suicídio coletivo, pílulas, uísques, orgias, e no fim ser massacrado pelo amor daquela ninfetinha, punhos cortados, sangue, sublime redenção. Olhando nos olhos dela eu disse “Ora garota, não é muito jovem para vender drogas?”. Entenda porque me entreguei. Entenda como sou, eu penso como um perdedor, não me resta saída senão a declarada no parágrafo acima.
A ela restou rir para mim com desdém, e me explicar, como se explica aos velhos aonde se mija, que “ A pílula azul, meu, é...a ilusão, saca? Maia e essas coisas, são as mentiras que vivemos todos os dias. Agora a vermelha, essa é ducaralho, é a pílula da verdade, se você escolher tomar essa,estará escolhendo o caminho certo, da luz e...”, no fim eu já não mais ouvia ela, só me concentrava em duas palavras: verdade e mentira, ilusão e realidade. Sai do bar embriagado e decidido, e de saco cheio de todas essas coisas, mentirinhas e mesquinharias que vivemos. Então resolvi fazer isso, resolvi ser eu mesmo. Me livrar dessa máscara rançosa de falsos bom dias e boa tardes.
Na última vez que sai com uma garota fomos a uma exposição, e eu me vi tentando impressioná-la com palavras intelectulóides copiadas de livros que li, tentei rimar amor com dor da forma mais medíocre. E ela também, uma falsária, abraçando desesperadamente os panfletinhos explicativos da exposição, para poder chegar em casa e vomitar tudo decorado o que aprendeu em sua magnífica tarde. É por essas e outras que me sinto vazio. Olho em volta me autoprovocando um distanciamento e percebo que todos os outros de terno e gravata estão vomitando coisas vazias. Vão chegar em casa e trepar com a mesma mulher a cem anos, e tudo o que eles construíram na vida vai se transformar numa migalha de satisfação.
Não quero mais ouvir os meus cd´s de jazz, os melhores já estão mortos. Sobre o que vamos falar agora? OS diálogos são repetidos ad nauseum , as frases feitas, as piadas nas horas certas. Um trago, um canapé,uma risada. O olhar cintilante do álcool, não permite que as pessoas sejam elas mesmas. As mulheres atrás de seus blush e batons vermelhos, percorrendo os salões da pinacoteca em dia de vernissage. Pisoteando cada pedaço de cultura, cada centímetro da arte ostensivamente com seus saltos alto. Considero tudo isso um desaforo, uma cuspida na minha cara. Não suporto mais conviver no limbo desse mundinho cruel que é o mundo das artes plastificadas, dos intelectuais deprimidos e decadentes em seus sofás de coro recitando Platão, das mulheres gordas de ministros gordos.
Tudo isso e por tudo isso que considero minha vida uma fraude, um erro no caminho do conhecimento. Quero deixar o meu testemunho sobre o tédio que sinto do que as pessoas não consideram tédio. Quando me encontrarem no quarto bêbado e drogado de lexotam, e de tantas outras pílulas vermelhas e azuis. Não se preocupem, não de ocupem de minha merda no lençol. Quero me entregar ao sebo do esquecimento, ignorar todo o mundo que gira lá fora sem a minha estonteante presença. Não quero saber das últimas peças estreadas, nem quero ouvir os gritos distantes de uma ópera qualquer.
Para mim acabou. O mundo já não me pertence. Quero me deteriorar no ócio do esquecimento.
28/04/2005
assim é
O que podemos esperar de todos os nosso dias, são apenas perguntas e mais perguntas, que juntas nao dariam uma resposta certa, eles, os dias, vão se multiplicando sem parar, e sem querer nos englobam por todos os lados. As perguntas, essas continuaram a me atormentar, para sempre, como uma polifonia indiscriminada, não há nada que eu possa fazer, nem há nada que eu queira fazer. Olhando assim a chuva, que cai sistematicamente à minha frente, penso que assim como os dias eu terei que me desfazer, me desdobrar criando uma passarela de mim mesma, por onde todo o tempo passa sem pedir. E eu, sem ser dona de mim, continuo buscando as respostas como um cego busca a parede mais próxima para poder se apoiar. Mas como nada vejo, deixo que todo esse sentimento me leve, como uma enchurrada, nesses dias de inverno que estão por vir.
21/03/2005
ALLEGRO - vinicius de moraes
28/02/2005
Borboletas Minhas

Como uma borboleta em chamas, é assim que caminho :louca, desvairada, cegamente em furia.
Nas noites ardo em sonhos, nos dias , cruzo a vida sem ao certo saber o ponto final.
Tantas coisas acontecem , e eu só fico a voar, voar voar.... em chamas, borboleteando minhas asas fogueantes. Ah se pudesse aterrizar na flor mais bela, e nela despeja o meu nectar e não o dela.
Chorar as minhas lamúrias em suas pétalas, descansar minha pobre asinha queimada. Soterrar em seu centro amarelo o finzinho das cinzas que sobraram de mim.
04/02/2005
Se dou cabo de meu ser
Se recorro `a beira de meu infinito ser
Então é porque nada sei, nada sei de mim
Se posso tomar
quantar pilulas quiser
olhando para o mar além, além céu
além, além, além
Daí eu choro sozinha
choro porque sinto desgosto
porque não saberei jamais
o prazer do gozo
se dou cabo de meu ser
se recorro `a beira de meu infinito ser.
Se recorro `a beira de meu infinito ser
Então é porque nada sei, nada sei de mim
Se posso tomar
quantar pilulas quiser
olhando para o mar além, além céu
além, além, além
Daí eu choro sozinha
choro porque sinto desgosto
porque não saberei jamais
o prazer do gozo
se dou cabo de meu ser
se recorro `a beira de meu infinito ser.
07/12/2004
Quando Nietzsche Dizia
25/11/2004
17/11/2004
dance dance dance
08/11/2004
APELO
Tenho somente um coração
Que fica no lado esquerdo do
meu peito
num só lado do meu corpo
o tenho.
Ah se o tivesse batendo
no meio
e acalentasse o outro
lado esquecido.
Que fica no lado esquerdo do
meu peito
num só lado do meu corpo
o tenho.
Ah se o tivesse batendo
no meio
e acalentasse o outro
lado esquecido.
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